sábado, 29 de outubro de 2016

O Calendário da Cinthia: MARÇO

Clube Lunáticas por Romances, 2016.

O corpo cansado despertava ao som de uma voz rouca, que ecoava por todo o avião, anunciando que em alguns minutos pousariam em Ribeirão Preto.
Cinthia havia adormecido logo após o avião decolar, todas essas viagens estavam desgastando-a, porém ela admitia; estava indo muito além do estimado em seu progresso para conseguir o dinheiro que salvaria a vida de sua irmã. Havia ainda um longo caminho a percorrer, mas tudo era válido, desde que Xena ficasse a salvo.
Assim que desembarcou, seu celular começou a vibrar e rapidamente Cinthia cavou em sua bolsa a procura do aparelho.
Ela franziu o cenho ao ver um pequeno envelope piscar na tela, era um SMS.
Que pessoa hoje em dia não possui uma porra de WhatSapp? — pensou, clicando sobre o ícone de mensagem.

De: Anônimo.
Às: 9:45 am.

*Siga pela saída Sul. É uma saída privilegiada, você não terá problemas, uma vez que mostre um documento de identificação. Um motorista estará a sua espera.*

Cinthia ficou estática no lugar, relendo e absorvendo a mensagem.
Saída privilegiada? Que diabos!
Após pegar sua pequena bagagem, seguiu na direção indicada pelas placas até deparar-se com um pequeno guichê. Atrás havia uma senhora, cabelos grisalhos, pele flácida e enrrugada e um ridículo batom vermelho puta nos lábios. Cinthia sentiu vontade de rir, ainda mais quando se aproximou e a mulher lhe sorriu, revelando seus dentes amarelados e borrados com o batom. Seu crachá indicava seu nome, Angelina. Porém, mesmo beirando aos cem anos e com a mínima noção do ridículo, Angelina tinha uma posição e um emprego, enquanto Cinthia apenas tinha que se sujeitar a ir encontrar um desconhecido por dinheiro a fim de salvar a bunda de sua irmã.
A vontade de rir passou, Angelina e seu batom borrado estavam num patamar melhor.
— Bom dia, em que posso ajudá-la? — inquiriu a senhora com uma voz mal humorada.
— Bom dia — respondeu, pescando seu RG na bolsa. — Aqui. — Entregou o documento, que Angelina pegou revelando suas enormes unhas na cor rosa pink. — Fui instruída a passar por essa saída.
Angelina digitou alguma coisa em seu computador e franziu suas sobrancelhas peludas.
Cristo! A mulher era abominável!
— Você não me parece como uma celebridade — disse Angelina ainda mantendo sua atenção no computador.
Então, aquela era à saída de celebridades?
Legal!
— Oh, e nem você! — rebateu Cinthia ofendida. Dane-se a idade da velha. Que abusada! — Qual é, meu nome está no seu computador ou não?
— Querida, com a minha idade tudo é um pouco mais lento, mantenha a calma, sim? — Angelina fez um bico espalhafatoso com todo o seu batom e entregou o documento a Cinthia. — Está liberada, siga o corredor a esquerda.
— Obrigada — agradeceu com tom irônico, guardando o RG em sua bolsa.
Com passos temerosos ela seguiu o longo corredor até finalmente poder ver a luz do dia. O sol já irradiava seus raios extremamente quentes.
Logo Cinthia pôde observar uma enorme limusine, onde havia um homem parado ao lado da fora, ostentando um terno bem alinhado em seu corpo, ele mantinha os braços em linha reta ao lado do corpo.
Show! Tipo o filme O Guarda Costas. — pensou ela, sentindo-se extremamente importante. Seu ego inflou, e os seus passos temerosos tornaram-se confiantes. Ela rebolava o quadril e jogava os cabelos.
Foda-se, ela era uma celebridade, porra!
— Senhorita Gutierrez... — o homem saudou, abrindo a porta do passageiro com uma mão, para que Cinthia pudesse entrar e com a outra retirando seu quepe.
Cinthia sorriu amplamente ao entrar na luxuosa limusine. Não se preocupou em saber o nome do motorista, ele era coadjuvante ali.
Duas horas de percurso, saboreando um bom champanhe e absorvendo as paisagens dos municípios de Sertãozinho e Bebedouro, ela chegou em Barretos.
A limusine sai da estrada principal e pega uma pequena estrada de barro em poucos minutos estacionando em frente a um enorme portão de ferro.
O motorista ajudou Cinthia a descer, enquanto embasbacada, ela observava o tamanho da propriedade.
Agora sim compreendia a limusine, saída de celebridade e todo o luxo oferecido a ela.
O portão foi aberto, como um passe de mágica. Não havia ninguém ali, sequer uma guarita onde poderia constar um porteiro ou qualquer coisa do tipo.
Ela sentiu o coração bater mais ritmado, sentia-se ser observada e não era pelo motorista.
— Tenho ordens para deixá-la aqui, senhorita. Boa sorte — disse o motorista, depositando as malas ao lado dela.
Cinthia assentiu sem desviar seu olhar da enorme mansão rústica a sua frente, porém, algo chamou sua atenção. Ao longe caminhava em sua direção um homem com um andar imponente, um chapéu de cowboy na cabeça, jeans apertado sobre as cochas bem malhadas, camisa xadrez abraçando seus músculos e um cinto de couro com uma enorme fivela.
Ela era observadora, e os quatro primeiros botões da camisa estavam abertos, revelando um peito másculo e muito delicioso, por sinal.
Cinthia sentiu as pernas bambearem, o corpo todo tremia. Um frio lhe percorreu do dedinho do pé até sua nuca.
Puta que pariu! — gemeu em pensamento. Ele era um pedaço de mau caminho. Não era obrigada a ter relações, mas por aquele homem ela rasgaria as suas próprias calcinhas ali mesmo.
Com um sorriso brilhante de dentes perfeitamente brancos e bem alinhados, Romero se aproximou dela, que ainda estava estancada no lugar, e lhe beijou a face.
— Espero que tenha feito uma boa viagem — sibilou.
Ela teve que reprimir um gemido ao sentir o perfume delicioso de fragrância amadeirada que emanava daquele homem.
— Sim, eu fiz — respondeu no modo automático.
Romero pegou as malas de Cinthia e a chamou com um maneio de cabeça. Rápida e um pouco estabanada ela o seguiu.
Os olhos percorriam o enorme jardim... Tinha até mesmo uma fonte!
Assim que entrou no hall, Romero deixou as malas de Cinthia no chão, um empregado já estava posto para levá-las para o quarto.
— Sinta-se em casa — disse ele atrás da jovem.
Cinthia admirava o local, grande, luxuoso e muito bem decorado. Viveria ali... Merda, ela se casaria com aquele homem só para desfrutar de tudo o que seus olhos podiam ver.
— Meu nome é Romero, desculpe-me se te assustei com a mensagem mais cedo, porém era preciso. Eu tenho que manter certa discrição sobre isso — disse ele, referindo-se ao motivo de Cinthia estar ali.
Discrição? Ok, ela também precisava ser discreta. Ser intitulada como uma acompanhante de luxo fodida que estava na merda para salvar a bunda de sua irmã não seria muito legal.
— Eu não sei qual foi o combinado, mas está ótimo. — Cinthia sorriu.
Romero a analisava de cima abaixo. Ela era bonita, como SCarolina havia dito, dava muito bem para enganar os seus familiares. Ele apenas tinha que demonstrar afeto em público e trocar algumas carícias.
O pensamento fez o estômago de Romero revirar.
— Pode ir descansar, Carlos irá levá-la até o seu quarto para que se instale e depois iremos almoçar, precisamos combinar algumas coisas.
— Combinar? Tipo o que? Achei que tudo fosse combinado com O Lunáticas.
Romero levou o indicador até o queixo de Cinthia e esboçou um mínimo sorriso. O toque quente em sua pele a fez tremer.
— Querida, há coisas que não podemos dizer. Eu contratei seus serviços, eu a tenho ao meu dispor, posso fazer com você o que quiser, então iremos combinar. Há algumas coisas as quais você precisa saber antes, ou nada disso valerá à pena, ao menos para mim, pois já depositei metade do combinado.
— Você não é nenhum mafioso, não é? Porque olha, eu estou nessa situação por forças maiores, mas se for me envolver em qualquer furada eu caio fora agora mesmo! — disse Cinthia um pouco assustada. Não era política do clube, mas um homem rico e enigmático que morava no meio de um nada, ou era um mafioso, ou um traficante de drogas, talvez até mesmo um dominador? Se bem que ele não se vestiria como um cowboy... Ou talvez sim... Dane-se, ele era lindo, gostoso, rico, mas muito, muito estranho.
Romero deu um passo para trás e indicou o local o qual Carlos a aguardava com as malas.
— Sedenta por informações, mas fique tranquila. Não irei cortá-la em pedacinhos e jogá-la em um rio. Agora vá — ordenou. — Temos pouco tempo para que possamos planejar tudo.
Ela assentiu e seguiu Carlos, subindo as escadas, cavando o celular em sua bolsa e digitando uma mensagem para sua tia SCarolina e Thayse em um grupo do Lunáticas.

Ele é estranho. Se por acaso eu não aparecer, paguem a porra da dívida e salvem Xena. Ficará como meu seguro de vida! Vocês me pagam. Suas vacas!

Ela não obteve resposta, apenas viu no aplicativo que a mensagem havia sido lida.
Já acomodada e um pouco descansada, Cinthia desceu para o almoço quando Carlos anunciou em seu quarto.
As pessoas haviam perdido o senso de comunicação, pois a ostentação ali era tão demasiado que o quarto tinha um interfone, como se fosse um motel para solicitar serviço de quarto. Era prático para uma mansão como aquela, porém muito bizarro.
Assim que entrou na sala de jantar, Romero já estava sentado em uma ponta da enorme mesa. Um banquete estava servido.
Cinthia sentou na outra extremidade.
Uau! Ele estava sem o chapéu, revelando cabelos escuros e lisos, que iam até a suas orelhas. Os olhos eram de um azul mar, que a fitavam com interesse.
— Cinthia, serei breve — pronunciou ele assim que ela se acomodou. — Tenho uma festa hoje a noite, porém preciso apresentar uma namorada a minha família, questões de negócios, como não tenho uma namorada — enfatizou a última palavra —, eu precisei usufruir dos serviços do Lunáticas.
Cinthia ouvia atentamente, poderia enfim respirar aliviada, talvez ele não fosse mesmo um mafioso e ela poderia desfrutar daquele belo homem. Porque aquele sim não haveria restrições.
— E o que de tão grave tem que ser combinado, meu bem? Fazer uma cena de casal apaixonado é muito óbvia e fácil, não acha?
Para ela poderia ser fácil, mas para Romero a conversa era totalmente diferente.
— Há alguns limites e quero que os respeite — ditou um pouco frio. Cinthia engoliu em seco com o seu tom de voz. — Beijos apenas singelos e nada de língua. Absolutamente fora de cogitação. Carícias do tronco para cima e, por favor, mantenha sua mão na minha, isso será o suficiente, sussurros e conversinhas ao pé do ouvido é o mais tolerável. Além de parecer amorosa e louca de amor por mim, isso basta para minha família.
O que? Ele era louco? Que porra de homem é esse? Tipo o cara com “toque”? Ou...
Cinthia levou a mão à boca quando o entendimento passou diante dos seus olhos.
Caralho, o cara era gay! E ela estava desejando que ele entrasse em suas calcinhas. Mas como? Ele não tinha sequer uma voz afetada, nenhum trejeito afeminado, nada o entregava.
Puta que pariu! Ele deveria ser o ativo. Macho alfa, mas que gosta de foder com outros machos alfas.
Ela gemeu internamente, que desperdício. Porém interessante. Ele tinha um ar de mistério.
Romero percebeu que ela havia entendido.
— Mas por que o fingimento? Pelo o que vi, você é bem sucedido. Qual a verdade por trás dos fatos que sua família não pode saber da sua homossexualidade?
Ele bebericou sua bebida e voltou a atenção para Cinthia.
— Sou de uma família tradicional, “cabras machos” é motivo de orgulho, venho de uma tradição de homens que lidam com gado, boiadeiros... Minha família tem um império aqui. Metade da cidade nos pertence, isso seria uma vergonha e o meu fim como cowboy. Jamais poderia montar novamente com tamanha revelação sem virar motivo de chacota ou discriminação. É complicado, porém minha família já me vem questionando algum tempo. Querem netos e essas coisas todas, porém eu não quero perder meu título! — A voz de Romero havia adquirido um tom mais baixo e Cinthia diria até mesmo que amigável.
Ela mordeu o lábio, estava pensativa.
— Eu compreendo, porém não aprovo essa sua decisão. Está mais como uma missão de auto-ajuda, contudo eu admito ser bem fácil. Esperava uma bonificação, mas acho que valerá a diversão. Ok, cowboy. Vamos impressionar a sua família. — Ela bateu palmas e piscou para ele.
Romero levantou seu copo e sorriu para Cinthia.
Os dois almoçaram e puderam conhecer-se um pouco mais. Romero tinha um namorado que era o seu oposto, afetado, afeminado e ele o amava. No entanto era complicado manter as aparências uma vez que sua própria família questionava a sua aproximação com o rapaz.
Cinthia o instruiu a se assumir para a família, o mundo está bem mais moderno, mas Romero bateu o pé, era impossível para ele com sua família tão tradicional.
Logo após ela subiu para seu quarto a fim de se arrumar, mas em um rompante a porta do seu quarto foi aberta e por ela entrou um homem com um rebolar de dar inveja a qualquer top model. Seu cabelo bem penteado e brilhoso parecia de boneca.
— Ei fofa! — cumprimentou ele com uma voz fina e estridente.
Cinthia o questionava com o olhar.
Mas que porra de bicha louca!
— Você seria? — inquiriu, estava cavando sua mala a procura de algo para a tal festa, ou reunião, ou a merda que fosse com a família de Romero.
— Beto, meu bem, Namorado, dono e único homem na vida do meu Mero, Mero. Prazer. — Ele agarrou os ombros de Cinthia e beijou suas bochechas.
Mero, Mero? Ela teve que segurar a gargalhada.
O que Romero não tinha, sobrava muito em Beto.
— Vamos ver o que você tem aqui. — Beto levantou seu óculos escuro e começou a vasculhar a mala de Cinthia. — Que porcaria, querida. Fez compras desses trapinhos aonde? Andou pela 25 de Março em São Paulo não foi? Acredite, eu já morei lá, trabalhei no Brás e aquela feirinha é enganação. Venha, vamos vesti-la como uma verdadeira cowgirl — disse tudo em um único fôlego, puxando-a pela mão e levando-a até outro quarto.
— Ei, devagar, cacete! — grunhiu ela ao tropeçar. Beto era espirituoso e ela já havia gostado da bicha porra louca, porém ele precisava controlar a sua impulsividade em arrastar as pessoas.
— Desculpe-me meu bem. Mas jamais iria te jogar ao leões daquela família, sem vesti-la a caráter. Não posso jogar o meu TUDO em uma armadilha. Eu morreria enforcado em um pé de couve se ele não pudesse montar novamente. O que seria um desperdício, pois ver aquela bunda durinha sentar é uma realização e...
— Cale a boca! — gritou Cinthia.
Beto abriu a boca em um “O” perfeito, completamente descrente com a atitude da moça, seus olhos estavam hostis.
— Abafa esse grito, vaca. Controle-se eu deixarei você ir com aqueles seus trapinhos de quinta e ser um poodlle indefeso enquanto os leões te jogam de um lado para o outro.
Cinthia mordeu o canto da boca para não bater na face da bicha matraca. Ela não tinha trapos. Suas roupas eram apenas normais.
— Não humilhe minhas roupas, somente porque você está vestido de grife dos pés a cabeça.
Beto revirou os olhos.
— Não, meu bem. Suas roupas se humilham sozinhas. Venha, está quase na hora, vamos por seu traseiro dentro de uma mini saia jeans, botas e uma regatinha e um colete, claro, com estilo. Vá se trocar, está tudo naquele closet, eu vou buscar um chapéu de arraso e um cinto. E por favor, use uma calcinha, a última garota estava com tudo de fora e nossa, — fez uma careta — ela definitivamente não sabia o que era depilação — disse e saiu do quarto.
Então Romero já havia contratado mais de uma namorada. Pobre homem, estava fodido internamente.
Ela se vestiu e olhou seu reflexo no enorme espelho. Estava muito sexy, a saia cobria exatamente sua bunda, nem um maldito centímetro a mais, mas seu rosto ainda estava pálido.
— Voltei fofinha e puxa! Nossa senhora da perna longa, se eu fosse homem eu te devoraria inteirinha com mel. Você está um arraso — gritou Beto com euforia. — Aqui, coloque esse chapéu e passe o cinto em sua saia e ficará perfeita. Vamos para a maquiagem, porque você está com a cara do Gasper, aquela bolha que as pessoas chamam de fantasma camarada. — Revirou os olhos e bateu no banquinho em frente a penteadeira, indicando onde ela deveria se sentar.
Essa definitivamente era a experiência mais engraçada que Cinthia estava vivendo. Sua libido tinha ido por água abaixo com relação a Romero, então iria aproveitar toda aquela bizarrice.
Após a maquiagem Cinthia estava irreconhecível, ela olhava-se por todos os ângulos, girando seu corpo na frente do espelho.
Beto mantinha a mão na cintura e com a outra ele batucava em seu queixo no mesmo ritmo que seu pé batia no chão.
— Minha filha, com esse traseiro, ninguém irá olhar para a sua cara. Pare de rodopiar, está me deixando com náuseas. Eu já disse que se fosse homem a comeria com mel?
— Beto, dá uma segurada, sim? — Cinthia fechou sua mão em punho e mostrou a ele. — Eu amei essas botas, eu as quero para mim. Posso levar o look?
— Queridinha, após ver aqueles trapos em sua mala, direi ao Mero Mero que te dê todo o closet, você é uma pessoa necessitada. — Brincou Beto e a abraçou. — Você está um arraso, minha faculdade de moda valeu a pena. Venha, vá salvar a bunda do meu Mero Mero e... Oh! — gemeu alto fazendo Cinthia pular, ela precisava se acostumar com os gritos. — Faltou o gloss. Como eu me esqueci do gloss. Aqui — puxou o objeto de sua maleta —, faça beicinho queridinha. — Cinthia obedeceu. — Perfeita, mas não deixe esse gloss em Mero Mero. Acredite, eu irei saber se abusou do templo de sedução.
Cinthia não aguentou e soltou uma gargalhada contagiante.
Templo de sedução?
Ela ficou imaginando como seria Romero e Beto juntos, um tão comedido e o outro... Bem, o outro é o Beto.
— Por que ele quer tanto se esconder? Ele poderia montar em outro lugar, sei lá, se as coisas ficarem difíceis...
Beto negava insistentemente com a cabeça enquanto Cinthia falava.
— Barretos é o seu lugar. Apenas nos ajude e iremos levando até o dia que ele ficará satisfeito em apenas assistir a um rodeio sem participar, quem sabe não assumimos?
— Faz quantos anos? — Ela quis saber.
— Sete, mas chega de papinho de vizinhas. Você está quente, vá arrasar. E depois de toda essa coisa chata de família, Mero Mero e eu iremos levá-la a uma festa de verdade. — Piscou e lambeu o dedo para em seguida empinar a bunda e tocar o local. — Lá sim será quente. Mantenha as suas unhas longe do meu templo, queridinha.
Cinthia saiu do quarto sorrindo, por mais entusiasmo que Beto tenha, seus olhos carregavam certa tristeza. Era tão irreal acreditar que em pleno século XXI ainda existe tamanha discriminação ao ponto de das pessoas não poderem viver seus sonhos devido ao que a sociedade julga correto ou não. Opção sexual não muda o caráter de uma pessoa. Isso é algo pessoal, mas a sociedade o torna público. Triste.
— Uau — sibilou Romero quando Cinthia apareceu no Hall. Ele estava um cowboy alinhado e impecável.
— Digo o mesmo a você, Mero Mero. — Brincou e Romero sorriu. — Vamos arrasar com sua família, baby.

(***)

De volta do evento em família de Romero, Cinthia havia cumprido seu papel, mas estava estressada e sentiu vontade de dar uns bons socos em cada membro daquela família.
Pessoas arrogantes com dinheiro e narizes em pé. Um bando de hipócritas, pois ela bem viu o cunhado de Romero enfiando a mão sob a saia de sua prima.
Uma família que pregava mandamentos, mas que não poderia aceitar um amor verdadeiro, mas sim viverem em pecado de traição? Ela sentiu vontade de vomitar.
— Você não pode viver nessa farsa, o que fará quando eu me for?
— Que terminamos, isso me dará um tempo de falso sofrimento até que comecem os questionamentos novamente.
— Isso é ridículo!
— Sim, é. Mas eu decidi assim. Agora se quiser vir a uma festa de verdade, vamos apenas ignorar essas três horas irritantes, ok?
— Eu preciso de uma Skol Beats! Aqui tem Skol Beats? Uma festa só é festa se ela tem a minha bebida.
— Cinthia, fique tranquila, a festa irá começar agora.
Romero estava dirigindo seu Mercedes, mas ao chegar em sua propriedade ele deu a volta por uma estradinha que Cinthia não notou quando chegou pela manhã. Ele estacionou em frente a um enorme galpão, havia um segurança na porta.
Interessante, somente pessoas autorizadas.
Cinthia estava começando a gostar.
Eles passaram sem problema algum pelo segurança que cumprimentou Romero e assim que ela colocou o primeiro pé dentro do galpão pôde ouvir o som.

“Senta!
Eu sei que senta!
Ele senta, eu sei que senta!
Ele senta, eu sei que senta!
Ele senta, eu sei que senta!
Senta no cavalo
Só pra levantar o rabo...”

Seus olhos olhavam para diversos cowboys, uns bebendo, outros dançando, uns vestidos como Romero, alinhado em sua roupa e outros como Beto...
— Caralho! — ela gritou, olhando para Romero. — Essa música... Porra, vamos a festa, cowboy viado. — Cinthia agarrou a mão de Romero o arrastando para dentro.
Beto viu seu namorado de longe e correu para livrá-lo de Cinthia. Abraçando-o e o beijando livremente.
— Ei, vocês dois. Procurem a porra de um quarto e me levem até a cerveja. — Brincou batendo no braço de Romero.
— No toque. Você teve de Mero Mero muito mais do que eu essa noite — grunhiu Beto.
— Ah, foda-se você e o Mero Mero, eu quero dançar. Me tragam cerveja — Cinthia gritou tentando acompanhar a coreografia.
Romero foi para o bar e Beto ficou com ela. A festa era homossexual, mas havia ela era a única hétero. Como ela sabia? Beto contou tudo. O fundador do clube, era Romero. Havia contrato de sigilo dentre muitas coisas as quais ele exigiu.
Era uma forma dele e Beto se encontrarem sem censura. Que ambos pudessem ter um divertimento. O galpão era propriedade de Romero e todo o seu ar arrogante, ele havia adquirido a fim de manter sua família longe.
— Levanta essa bunda sexy, aqui ninguém gosta de ver calcinha — disse Beto, mostrando a coreografia da música.
Cinthia gargalhava quando Romero trouxe um copo de cerveja. Ela sentiu o líquido escorregar pela sua garganta refrescando-a. A música não poderia ser mais sugestiva, Cowboy Viado. Era quando todos ali presentes se revelavam e dançavam mais, talvez fosse um marco para eles.
Depois de alguns copos de cerveja e outras bebidas mais que Cinthia sequer sabia quais eram, ela já estava rodopiando a sua blusa, rebolando sobre a mesa e dançando Cowboy Viado sem errar nenhum passo.
— Arrasa sua vaca! Pena que ninguém sente tesão em seus peitos — Beto gritou, jogou um líquido no corpo de Cinthia.
— É essa a graça, me liberar. TOCA O COWBOY VIADO AI CARALHO! — ela gritava.
Beto tirou a camisa, colocava no meio das pernas e dançava em vai e vem, logo Romero estava sem camisa também sendo seguido por todo o salão.
Se em todos os meses a diversão fosse garantida, Cinthia conseguiria rapidamente o dinheiro. Estava bom até Março, mas ainda faltavam longos 9 meses. Praticamente uma gestação. Ela riu com o pensamento e cuspiu a cerveja de sua boca em um dos homens que apenas soltou um palavrão, que ela respondeu mostrando o dedo do meio.
— Trenzinho!!! — gritou um homem e logo todos estavam um atrás do outro dançando, se apalpando e brincando.
Era uma experiência interessante, uma diversão que ela não poderia imaginar que teria. Estava precisando depois de dois meses com árduas aventuras, às vezes é muito bom somente relaxar e Cinthia estava tendo isso, ela não sabia que precisava até aquele momento. Toda a tensão de Xena em seus ombros era esmagador. Mas algo a incomodava, o olhar tristonho nos olhos azuis de Romero.
Ele não passava de um homem poderoso, mas em seu interior infeliz.
Seria tão fácil se as pessoas vissem o mesmo amor que ela via ali dentro daquele galpão. Um se preocupando com outro, independente da sua cor, raça, sexualidade ou religião. Todos são seres humanos e suas opções e escolhas devem ser respeitadas. Ela não fora discriminada por ser hétero sexual. Ao contrário, eles a acolheram como ser humano.
Gargalhava incontrolavelmente quando a sua primeira impressão de Romero fora de um homem destruidor de calcinhas. Era essa a impressão que ele queria manter nas pessoas, mas valeria à pena a infelicidade?
A festa havia chegado ao seu fim, Romero, Beto e Cinthia voltaram para a mansão. Foi explicado a ela que Carlos sabia, porém também estava sob um contrato de sigilo.
Cinthia estava exausta, tomou um banho e vestiu uma das camisolas de seda do closet o qual Beto a levou antes.
Ela desceu e os encontrou na cozinha, onde se juntou e iniciaram um pequeno bate papo. Ela teria um mês ali, um mês para tentar fazer do coração de Romero e Beto menos infelizes, pois o rodeio era a vida de Romero, e Romero a vida de Beto. Um não podia viver sem outro. Era um amor lindo de ser observado, com a ternura e devoção de um para com o outro.
— Tome, isso é para você. — Beto estendeu a mão entregando um IPod a ela. Cinthia sorriu amplamente e nítida era a sua felicidade. Ela colocou os fones de ouvido e começou a rir imediatamente quando a música começou a tocar.

"Iaê Cowboy Viado!
Senta!
Eu sei que senta!
Ele senta, eu sei que senta!
Ele senta, eu sei que senta!
Ele senta, eu sei que senta!
Senta no cavalo
Só prá levantar o rabo...”

— Como sabiam? Quando compraram? — perguntou em meio a risada.
— Não sabíamos e não compramos. Era meu, agora é seu e treine esse seu rabo para sentar na próxima festa. Beto estava arrasando e você é muito desengonçada. Honre a nossa música e dance-a direito. Você tem 30 dias a partir de hoje para uma avaliação — orientou Romero. Ele estava descontraído e relaxado. Era bom conhecer esse seu lado. O verdadeiro.
Cinthia assentiu e tirou o fone de ouvido.
— Será um longo mês de sentadas no cavalo, mas eu aceito o desafio. — Piscou. — Farei o meu melhor para ser uma namorada convincente e espero que um dia, esse amor seja revelado ao mundo. Gostei do que vi hoje. — Ela acenou e saiu, indo direto para o seu quarto.
Deitou na cama e pegou seu celular.
Não podia abraçar o mundo, ou Xena já estaria a salvo.
Cinthia suspirou pesadamente, Romero era de opinião o medo do preconceito falava mais forte, Cinthia não podia ajudá-lo nessa questão.
Ela começou a digitar...

Suas vacas, você sequer me respondem, mas eu vou falar mesmo assim.
1 dia já foi, tenho mais 30 de pura diversão. Dessa vez deu a boa para mim. Me engulam! MUAHAHAHAHAHAHA.
Beijos e beijos...

Nota da autora: O mundo só será bom, quando a humanidade aprender a amar uns aos outros, com suas imperfeições, escolhas, opiniões e deixar de impor o que nunca cabe a elas. O verdadeiro a julgar vê tudo, ouve tudo e sabe de tudo!
Vamos amar!!!

Por Barbara Dameto