sábado, 29 de outubro de 2016

O Calendário da Cinthia: FEVEREIRO

SEGUNDO CONTO DO LIVRO "O CALENDÁRIO DA Cinthia"

Clube Lunáticas por Romances, 2016.

Olhei para o ateliê e tive que me lembrar de que precisava do dinheiro, suspirei fundo por três vezes antes de entrar.
Havia algumas esculturas no local, e o cheiro de thinner embrulhou meu estômago.
— Lembre-se do Lunáticas Cinthia, ou você quer que vá tudo por água abaixo? – Disse a mim mesma enquanto abria a segunda porta. — Ah se eu pudesse eu repetia janeiro. – Meu eu pensamento foi automaticamente parar em uma banheira do Four Seasons.
Suspirei desanimada, não era obrigada a fazer sexo é verdade, mas teria que fazer com alguns, sem o bônus não conseguiria a quantia necessária.
Abri a porta e fiz o sinal da cruz, entrei como um boi entra no matadouro.
Havia um espelho imenso e pude ver a tensão em meu rosto, meus olhos escuros estavam sofridos e minha boca estava tensa.
Fiz uma careta para mim mesma e só então notei a expressão de surpresa no homem parado atrás de mim.
— Cinthia? – O tom era de incredulidade.
— Colton? – Ah para o inferno, o homem era feio feito o diabo. Sorri de um jeito amarelo enquanto procurava alguma coisa para bater-lhe na cabeça e fugir, quer saber que se foda o Lunáticas, eu começo em outro clube, o que é meu tormento perto de ter que dar para esse homem?
— Você ouviu o que te falei? – O tom era azedo, cheio de reprovação.
— Não! – Disse sem jeito. – Me desculpe Colton!
— Eu não sou o Colton, sou seu assistente. Eu nunca contrataria uma que não fosse profissional.
— Você o que? – Mas o homem já estava andando como se me mostrasse o caminho. O segui em silêncio.
Engoli meu orgulho. Minha vontade era de esmurrar aquele feioso, porém havia o Lunáticas e as meninas me matariam, então me abstive e fingi demência. Passei a prestar atenção ao meu redor, havia quadros de todos os tamanhos, algumas esculturas e muitas caixas de papelão.
Chegamos a um salão grande e pouco arejado. Uma mulher nua posava languida em um pedestal, as luzes iluminavam cada contorno de seu corpo. Era impossível não olhar atentamente para ela. Os mamilos rosados estavam rijos, os seios eram levemente caídos e o ventre flácido o que me fez pensar que ela talvez já fosse mãe. Fiquei vidrada na mulher, ela não se mexia, mas ao mesmo tempo me parecia tão à vontade, mesmo sem estar depilada. Fiquei um bom tempo olhando seus pelos púbicos e tentando lembrar-me de porque os achava feio em mim, quando uma voz rouca me tirou daquele devaneio.
— Mulheres são a parte mais próxima que temos da perfeição, não acha? – Olhei em direção a voz e me deparei com os olhos mais verdes que vi na vida.
— Mulheres? – Indaguei sentindo o coração bombear feito uma marreta contra o peito. Aquele sentimento era algo inédito até então.
— Sim, homens ficam estranhos, ou são eretos ou pequenos e flácidos. –Não olhe para a boca dele, não olhe! – Tentei dizer a mim mesma, porém era tarde demais, estava vidrada naquela boca rosada de sorriso perfeito.
— Nunca pensei por esse ângulo! – Oh céus, era tão difícil prestar atenção no que ele falava.
— Devia pensar, mas que belo cavalheiro sou eu, nem ao menos me apresentei. Prazer meu nome é Jesse Colton, e aposto que você é a senhorita Gutierrez.
— Você é o Colton? – O problema parecia pior do que eu imaginava, o homem era lindo e espirituoso, antes fosse feio...
— Sim, Carol a mandou não é?
— Sim! – Minha voz me traiu e saiu esganiçada o que o fez sorrir. Um sorriso que mexeu com cada célula do meu sistema nervoso.
— Vamos almoçar? Aposto que está com fome. Eu pelo menos estou faminto...
— Estou com fome! – Eu não menti, estava faminta pela visão que era Jesse Colton.
— Ah pelo visto achou a moça! – Disse o feioso com desdém.
De onde aparecia aquele homem? E olhar Colton em frente a ele era quase um insulto, enquanto o feioso era um baixinho de cabelos ralos e nariz adunco, Jesse Colton era alto, os ombros largos que davam um caimento perfeito a camisa social branca que usava, era magro, mas não exageradamente, além do porte que a natureza lhe brindou, havia o rosto... E que rosto era aquele? A pele branca tinha um tom levemente bronzeado, os olhos verdes destacavam-se por entre longos cílios pretos, a barba por fazer combinava perfeitamente com os cabelos escuros e fartos que caiam pelos ombros.
— Onde fica o toalete? – Ignorei tudo que eu sentia naquele momento, eu só precisava jogar uma água no rosto só assim me recuperaria daquela impressão.
— No fundo da sala! – O feioso respondeu com desdém e devolvi o mesmo semblante.
Fui ao banheiro, lavei o rosto, respirei fundo milhares de vezes, reapliquei a maquiagem com calma, e pronto já era dona dos meus atos novamente, com isso decidi dar uma lição de moral naquele assistente. Meu plano era mostrar toda a sensualidade dos Gutierrez para isso só precisava atravessar o salão.
Saí de lá diva e com ar imponente. Ao passar por eles decidi dar aquela rebolada, afinal eu tinha uma bunda maravilhosa e mostraria aquele horroroso o quanto era profissional. Já quase no fim do meu desfile enrosquei o salto numa sacola e caí de quatro no chão... Minha vontade era de morrer.
— Querida, você está bem?
Jesse estava ajoelhado na minha frente. Mordi os lábios e pude ver o sorriso aflorar em seu rosto. Ele me ajudou a levantar e quando dei por mim estava em seu colo.
Sim, Jesse me carregou como quem carrega uma noiva, e fomos direto para seu quarto sem perguntas.
Assim que entramos ele simplesmente depositou-me em sua cama, não falou nada, eu também não vi necessidade em uma conversa. Ah se Fabi ou Stella me vissem nesse momento, tão solta e segura, nunca duvidariam do meu profissionalismo.
Vi Jesse fechar a porta à chave. Quando ele deitou ao meu lado nossos lábios se uniram pela primeira vez. Foi um beijo profundo e quente, daqueles que dá vontade de tirar a roupa e foi o que fiz. Abri a blusa de Jesse aspirando seu perfume, uma mistura deliciosa de 212 e tinta óleo. Ele me puxou para cima novamente... Sua barba por fazer roçou o meu pescoço me arrancando suspiros.
Gemi baixinho, enquanto as mãos dele entravam por dentro do meu vestido. Jesse me afastou um pouco e observou meu rosto. Passei a mão em seu rosto másculo. O queixo proeminente era o traço mais bonito do mundo.
— Você é linda! Já estudei tantas mulheres, nenhuma delas foi igual a você, embora o padrão se repetisse diversas vezes, nunca vi um rosto parecido com o seu, e nenhuma alma tão magnética feito a sua, quero ficar com você.
Não respondi, o puxei para mim e o beijei. Jesse riu enquanto tirava meu vestido, expondo meu corpo. Agora entendi a liberdade da mulher que estava exposta lá embaixo.
Foi minha vez de despi-lo me fazendo discordar do que ele me disse sobre os corpos masculinos. Aquele corpo seria bonito em todas as ocasiões. O peitoral era levemente definido, porém firme. Abri a braguilha sentindo o volume duro preso por debaixo do tecido, puxei o jeans o deixando apenas de cueca, não consegui tirar a última peça que cobria seu corpo.
A visão de seu pênis não me deu outra escolha a não ser abocanhá-lo, o enfiei todo na boca. Ele segurou meus cabelos para me dar mais liberdade... Não me importaria em passar a vida assim, porém ele interrompeu minha diversão e me puxando para um beijo arrebatador. Abri as pernas em torno de seu corpo, e o cavalguei. Jesse gemia enquanto apertava meus seios. Volta e meia eu me inclinava sobre ele de modo a esfregar meu clitóris em sua pélvis.
Era uma angústia prazerosa, e eu me derramei sobre ele quase no mesmo momento em que ele explodiu dentro de mim.
— Eu esqueci a camisinha.
— Eu me cuido! – O tranquilizei.
Jesse pediu comida japonesa. Comemos e voltamos a fazer amor, por mais vezes do que posso recordar.
O mês decorreu como uma lua de mel. Fui sua modelo e inspiração para diversos quadros, e na conclusão de cada obra ele me possuía em seu estúdio fazendo com que eu me sentisse única e plena. O tempo agiu como nosso inimigo, se esgotando mais rápido do que eu gostaria. Senti que isso atormentava Jesse que sorria cada vez menos.
Fevereiro estava sendo o mês mais perfeito da minha vida. Cada dia que passava estava mais envolvida com Jesse, naquela época ele era um pintor em ascensão, não podia me pagar como ele quis, e chegamos a brigar algumas vezes por conta disso.
Ele quis me pagar para ficar março. Juntou todo dinheiro que vendera naquele mês, porém Titia já havia mandado as coordenadas de onde eu deveria ir e quem encontrar, depois claro de me dar uma senhora bronca.
"Não se apaixone Cinthia. Saia daí e esqueça que Jesse Colton existe!"
Sabia que era o certo a se fazer, então no dia 27 arrumei as malas e Jesse me ignorou o dia inteiro. Chorei muito, porém não havia o que fazer. No último dia ele saiu à manhã inteira e voltou poucas horas antes de eu partir.
— Quero te mostrar uma coisa e te dar outra antes de você ir... Com uma condição, você só vai poder me dizer o que achou se você voltar. Não quero que fale nada agora.
— Tudo bem!
Jesse me levou até o estúdio e me mostrou um quadro grande, nele eu podia me ver nua embolada em lençóis. A pintura não era só realista, era perfeita. Não falei nada, mas senti meus olhos arderem.
— Agora o seu presente!
Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma correntinha de ouro, nela havia um pingente da torre Eiffel. Ele não me perguntou, deu a volta e a colocou em meu pescoço.
— Cinthia esse quadro é para você saber que estarei contigo aqui. Todas às vezes que eu sentir saudades virei até aqui e lembrarei de tudo que vivemos este mês, e quero que você use essa corrente com o mesmo propósito.
O apertei em meus braços. Estava atrasada para pegar meu voo, portanto não pude atender o meu desejo de tê-lo uma última vez.
Peguei o avião com a certeza de que voltaria para Los Angeles o mais rápido possível.