quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Prisão (Trilogia Fênix)

Prisão 
(Trilogia Fênix)




Prólogo



Olhar aquele homem na minha frente me revira o estômago. Maldita hora que fui aceitar trabalhar para Nahrain. Porem, ele não sabe com quem ele está lidando. - Quem você pensa que é? – Pergunto já elevando a minha voz. - Eu já enfrentei muito cachorro grande, você não passa de um filhotinho pra mim Nahrain! – Grito dando soco na mesa enquanto me levanto para ficar cara a cara com ele. Eu. Não. Tenho. Medo. Você.  – Digo o olhando com desprezo. Ele me olha de volta com ódio quase palpável, eu rio por dentro, ele não faz ideia que a força que me move é muito maior do que qualquer sentimento que ele tenha por mim.
- Quando eu vim trabalhar para você eu disse, em alto e bom som, que eu não iria aceitar o trabalho por que eu havia dormido com o seu filho. Eu não trabalho com ou para os homens com quem saio! O senhor insistiu, dobrou a minha porcentagem nos lucros para que eu aceitasse. Por fim eu aceitei e o fato do seu filho não largar do meu pé não é problema meu!
O velho puxa os cabelos de traz para frente em um gesto de frustração, um traço característico que faz com o que eu me lembre, imediatamente, do motivo da nossa discussão: Omar Nahrain, filho do homem que me contratou para salvar sua empresa da falência. O homem que com apenas uma noite de sexo louco e selvagem bagunçou toda minha vida correta e cronometrada.

Meu nome é Angelina e eu sou uma business save.


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Capítulo 1
Angelina

Preciso me levantar... algo pesado me prende ao chão... quero gritar, mas meus pulmões ardem pelo meu esforço... as mãos dele passam por todo meu corpo... meus olhos estão desfocados devido aos socos... estou flutuando, já não sinto mais nada... enquanto ele entra e sai de dentro de mim com tanta força que parece um saco de pregos,esse é o terceiro, ou seria o quarto?.. Não importa mais... olho para o lado e ele está lá com os olhos abertos, sem vida e as mãos esticadas tentando me alcançar sem sucesso, estico minhas mãos, mas não o alcanço...

- Acorde Angelina! Acorde querida! – Sinto mãos delicadas me puxando e ouço um grito ecoar pelo quarto ainda tomado pela escuridão, meu grito. Retiro o cabelo dos olhos, sinto meu corpo todo suado, a respiração pesada. Olho para os pés da cama e a vejo, seus olhos estão tão abertos que parecem que vão pular das órbitas.
- Eu estou... – Tereza me interrompe antes mesmo que eu complete a frase.
- Não me diga que está bem! Quando foi que você dormiu uma noite inteira? - Sua pergunta soa irritada.
– Eu não preciso de uma noite inteira de sono Tereza e você sabe muito bem disso!
- Todo mundo precisa de uma noite decente de sono! - Ela se senta ao meu lado e segura minhas mãos com carinho. – Os remédios não estão funcionando mais! - Não tenho como negar, já que ela afirmou.
 – Não. Parece mais água com açúcar, mas eu posso tentar tomá-los com wisk, vodka...
Vejo seus olhos azuis se arregalarem novamente e gargalho vendo em quão fácil ela cai nas minhas provocações. Me levanto e sigo para o banheiro, cumprimento a mulher de feições pálidas e grandes manchas escuras abaixo dos olhos que olha pra mim pelo espelho. Libero um suspiro percebendo que querendo ou não preciso voltar ao André. Mas primeiro vou para academia já que o sono mais uma vez me abandonou, saio do banheiro e na saída do quarto comunico minha decisão a Tereza. – Vou à academia Tereza, ligue para Anna e peça  para marcar uma consulta para mim com o André para a primeira hora de hoje, por favor. Não preciso me virar para saber que seu sorriso se espalha cobrindo quase todo o rosto.

Na academia libero um pouco da tensão na esteira, mas ainda me sinto sufocada. Não consigo tirar esse aperto, essa angústia que me persegue. Calço as luvas e sigo para o saco de pancadas situado no canto do cômodo, ele sempre funciona melhor do que a esteira, apesar de eu não me acostumar com isso.
Jab, jab, cruzado e chute. Jab, jab, cruzado e chute. Depois de várias sequencias meus músculos estão vibrando, toda tensão se foi, mas a angústia ainda está lá, escondida, a espreita, não importa o que aconteça e quanto tempo passe, ela sempre estará aqui.

- Eu acho que você tem alguém aí precisando transar! - Anna, minha melhor amiga desde que eu me entendo por gente e minha assistente, me diz isso com a maior naturalidade do mundo.
- É isso que você acha mesmo? Por favor, Anna! – Digo tentando soar séria, o que não acontece. – Nem tudo na vida gira em torno de sexo sua tarada! – Ambas rimos. - O que você faz por aqui a essa hora?
- Só uma papelada que eu preciso que você assine para que o valor da Martinez entre na sua conta da Suíça.
- Ok. Só vou tomar banho e me encontro com você na sala.
- Tudo bem, leve o tempo que precisar. Ouça isso precisa parar Angel! - A menção do apelido que ela me deu me diz que aí vem ‘a conversa’.
- Eu sei. Eu vou fazer alguma coisa. - Respondo sem conseguir a olhar diretamente nos olhos.
- Sério? Você acha que de costas pra mim eu não vou saber que você está mentindo? Eu te conheço a o que? Um ano? Não Angel! São 27 anos de amizade e eu sei que você não vai fazer nada! Você prefere ser consumida, engolida pela dor a dizer o que tanto te atormenta!
- Eu sei o que me atormenta Anna! - Eu grito. – E eu saber já é sofrimento suficiente! Nada do que eu faça vai mudar isso! - Estou ofegante. Me controlar exige tudo do meu controle emocional. - Eu vou tomar banho e me trocar, nos vemos lá em baixo em 20 minutos.
- Ok. – Ela me responde sem nem mesmo olhar para mim, o que aumenta meu sentimento de culpa em mil por cento.
Durante o banho decido não sair de casa, afinal hoje é sexta feira e essa pequena discussão com a Anna me deixou de mal humor. Visto um moletom e desço para me encontrar com ela e assinar os papéis para transferência.

- O café está servido. - Me avisa Tereza no caminho para a sala de estar.
- Obrigada Tereza, traga os meus remédios por favor?  Anna, vamos para a mesa do café por favor, não comi nada ainda.
- Tudo bem, você pode levar o computador enquanto pego as pastas com os papéis?
- Claro. - Respondo, ainda sem jeito pela minha explosão anterior.
- Cancele todos meus compromissos de hoje.
- Oi? Desculpe, eu acho que não ouvi direito. Olhando-a de esguelha vejo seu sorriso característico de orelha a orelha, não me contenho e acabo rindo também.
- A rainha do trabalho e da escravidão de amigas barra assistente vai tirar uma folga? Isso é novidade pra mim. É o apocalipse? Vai haver um terremoto ou alguma coisa do tipo?
- Primeiro eu não exploro você, te pago, muito bem, diga-se de passagem, para você trabalhar para mim. Segundo todo mundo merece um dia de folga, até você. Digo piscando pra ela. – E terceiro, mas não menos importante, me desculpe pela explosão. Preciso que vocês acreditem que eu estou bem como estou. - Digo para Anna e também para Tereza que acaba de colocar uma jarra de suco de laranja em cima da mesa. Elas se entreolham, sinto que querem me dizer mais, mas desistem, pelo menos por enquanto.
- Ok. Você que sabe. – Ela diz mais para encerrar o assunto do que para concordar comigo. -  Esses são os papéis da Martinez, peço que você confirme os valores antes de assinar, por favor. Os balancetes da Fragoso, Albertine e Ruarez. A proposta da Hidra e da Celta. Todas duas possuem o Black Card. Existe uma outra proposta também, mas sem o Black Card. Acredito que eles conseguirão em breve.
Examino o formulário de transferência com a assinatura do Sr. Martinez e checando o valor.
- Anna você por acaso trouxe a cópia do contrato com a Martinez? Tenho a impressão que Raul quer me passar para trás. – Ela me dá um sorriso já sabendo
- Eu trouxe comigo sim, aqui está. – Eu a contratei por ser minha amiga, mas ela sempre foi muito eficiente e me ajuda muito. Anna é formada em Administração com pós-graduação em relações públicas, mas não se adaptou a nenhuma das duas carreiras, por isso, resolveu aceitar minha oferta de emprego quando eu voltei para o Brasil. Ela se adaptou tão incrivelmente bem que não consigo imaginar minha vida profissional sem ela. Apanho o contrato conferindo os valores sorrindo por ser tão sortuda a ponto de ainda tê-la em minha vida.
- Como eu pensava. Nesse formulário de transferência está faltando meio milhão de dólares. Ele entrou em contato, explicou o por quê dessa diferença?
- Não. O mensageiro só me entregou e disse que buscaria no dia seguinte.
- Por que eles fazem isso? Eu os salvo da falência, da ruína e eles me negam o valor que me devem. Que não chega a ser nenhum terço do que eles faturam? Eu tenho que deixar esses filhos da puta se ferrarem e falirem, simples assim. – Levo minhas mãos às têmporas, tentando inutilmente, evitar uma dor de cabeça que começa a dar sinal.
- O que eu digo a ele Angelina? – Pergunta Anna já com o telefone em punho.
- Ele não vai te atender querida. – Respondo ironicamente. – Mas tente, quem sabe você dá sorte, só passe o telefone para mim se ele atender. Passe o computador para que eu entre nas câmeras, por favor, vou precisar dar uma olhada para que ele entenda que com meu dinheiro ninguém mexe.  
Enquanto Anna tenta convencer a secretária de Martinez que ela precisa falar com ele urgentemente eu acesso o sistema de câmeras que eu mandei instalar na empresa do Sr. Martinez. Eu tomo meu café e tomo meus remédios enquanto entro em contato com a empresa de vigilância que segue os passos da família dele. Estou a pouco mais de três anos nesse ramo e aprendi que todo cuidado é pouco com esses empresários contratam os meus serviços. Depois de 10 minutos ao telefone e de olhar para uma Anna vermelha feito um pimentão na minha frente faço sinal para ela me passar o telefone.
- Adriana. – Diz Anna, em meio a um sorriso, já prevendo o que ocorrerá. - Aguarde um minuto que a Srª. Angelina vai falar com você.
- Adriana, como vai, aqui é Angelina lukyanova. Ah, eu vou bem, obrigada, mas eu ficaria melhor ainda se conseguisse falar com o Sr. Martinez.
- Ah. Claro. Mas é que. – Ela gagueja. - Desculpe, mas é como eu disse a sua assistente nesse instante, ele está em uma reunião de negócios que vai durar a tarde toda, quer dizer, o dia todo.
- Entendo, então você poderia me fazer uma pequena gentileza?
- Claro Senhora!
- Coloque o seu telefone no viva voz?
- Mas, por que senhora? Não tem ninguém aqui além de mim.
- Fico muito feliz em saber disso, por isso mesmo preciso que você coloque no viva voz. – Minha voz sai gélida e ela percebe que isso não foi um pedido.
- Ca... Claro senhora, pronto, a senhora está no viva voz.
Começo a falar logo após o anúncio da secretária - Obrigada Adriana. Martinez querido, eu sei que você está aí, ao lado de sua secretária Adriana, trajando um terno de péssima qualidade, diga-se de passagem, e de uma cor que não combina nada com esse seu tom de pele e muito menos com seus cabelos vermelhos. – Solto uma risada sem emoção ao perceber os olhos arregalados e a cara de espanto tanto dele quanto da secretária. – Exatamente Adriana, eu estou vendo vocês, assim como eu estou vendo a esposa do Sr. Martinez fazendo compras com um lindo vestido vermelho, (ela está acompanhada de um rapaz bem mais jovem que ela aos beijos, mas isso não vem ao caso) e também estou vendo seus lindos filhos saírem nesse exato momento para a escola com seu motorista, que tem o péssimo hábito de fumar com as crianças no carro. – Ouço um pigarro e deixo escapar um sorriso, Anna me acompanha enquanto gesticula um sinal de positivo.
- Angelina, de...desculpe. Eu estou com uma série de problemas, não estava evitando você. Jamais faria isso! – Gagueja, enquanto passa as mãos gordas pelo cabelo engordurado.
- Eu acredito. – Respondo. – Bem o motivo da minha ligação é que o formulário de preenchimento que você enviou a minha assistente está com um pequeno probleminha.
- Ah! Sim, o que está errado? – Pergunta ele.
- O valor. – Digo secamente.  – Está faltando meio milhão de dólares do valor que combinamos.
- Ah! Isso. – Ele responde em um riso nervoso. – Eu ia mesmo entrar em contato com a senhora sobre isso, é que eu queria te pagar esse valor no próximo faturamento ou quem sabe parcelar esse valor, por que eu estava querendo fazer um novo investimento, mas eu te pago. Não deixaria de pagar pelo que você fez por mim.
- Esse é o X da questão Martinez. – Digo já perdendo a paciência. – Eu não fiz o meu trabalho por etapa, ou parcelado, eu perdi horas do meu tempo precioso para salvar você da falência! Eu fiz o meu trabalho Martinez?
- Sim, claro.
- E por que você me contratou?
- Para você salvar a minha empresa.
- Você não entendeu minha pergunta Martinez, mas eu vou perguntar novamente. POR QUE você me contratou?
- Porque você é a melhor! – Ele admite com um suspiro.
- Era isso que eu queria ouvir. – Digo em um riso de escárnio. – Eu fiz a minha parte Martinez, faça a sua! – Minha voz cortante reverbera pela sala fazendo eco no telefone. – Sou a melhor no que faço, mas eu não sou a melhor pessoa quando mexem com meu dinheiro! Eu acho que você me entendeu.
- Claro. Ok. Estarei enviando outro mensageiro agora mesmo com o novo formulário e o valor correto.
- Obrigada, foi ótimo trabalhar com o senhor. – Assim que encerro a ligação e tomo outro remédio, só que esse é para dor de cabeça que definitivamente se instalou.
- Então, o que você pretende fazer na sua folga Anna?
- O que? Eu estou de folga também?
- Claro que sim! – Respondo com um sorriso pela surpresa dela. – Bem, será que poderíamos fazer algo juntas? – Pergunto sem jeito, já que faz tempo que não saímos.
- Claro Angel! Eu adoraria! Faz tempo que você não sai de casa, se diverte. Só aqueles jantares chatos com empresários, contatos e contatos. – Diz Anna com ar dramático, sem saber que eu saio sim, não com o mesmo propósito que ela, mas definitivamente eu saio.
- Exatamente! Quero sair, dançar, me divertir e esquecer. Quem sabe até encontrar um cara gostoso e me divertir um pouco. – Digo em tom de animação, sei que é isso que ela espera de mim.
- Isso! Assim que eu gosto, então vamos começar a produção. Abriu uma boate nova no centro, disseram que está bombando, entrar é que vai ser difícil, mas a gente dá um jeito.
– Então vamos lá garota! - Sorrio com seu entusiasmo. - Vamos nos embonecar. Vamos ao Salão fazer cabelo, unhas e maquiagem primeiro e depois às compras. Vou só trocar de roupa.
- Vamos lá então! – Diz ela e vai para a sala enquanto eu subo para trocar de roupa.
Normalmente não me sinto muito animada para sair, mas meu corpo pensa o mesmo que Anna, que já está sentindo falta de uma boa noite de sexo já que as reuniões tem me mantido presa quase todas as noites. Só espero encontrar alguém que saiba realmente o que fazer com uma mulher nua em uma cama.
E foi com esse pensamento que o destino resolveu brincar com minha vida, minha libido, minha mente e com o que restou do meu coração.