quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

FLOR DO ÁRTICO



Flor do Ártico
– O Amor faz brotar a vida -


Capítulo 1 – Ajuda Inusitada

Depois de décadas de convívio, entre vindas e idas, é sempre doloroso visitar a lápide dele. Fico pensando nos sentimentos que teria sentido. E muitos outros que jamais sentirá. Planejar uma vida é, de fato, muito mais complicado quando não se conta com as voltas que a vida dá.
E ainda pode ser pior quando tudo que se busca é um pouco de atenção e carinho, e nada se recebe por ser externamente incomum.
Para quem viu e participou dessa história, penso que tantas coisas poderiam ter sido diferentes.
Ainda assim, sempre que lembro como tudo começou tenho mais certeza de que nosso amor é igual a uma flor do Ártico.
Ah, você não entendeu essa comparação? Deixe-me explicar.
A flor do ártico é o nome comum de flores que crescem na tundra ártica. Apesar da aparência delicada e frágil, as pequenas flores sobrevivem a invernos rigorosos esperando apenas a primavera para florirem.
O que a flor do Ártico tem em comum com minha história?
Pois bem. Preste atenção que vou contar.


Ano de 1960...


Era final de tarde e, particularmente, um dia triste. Meu namorado havia morrido num acidente de carro havia um mês. O que era para ser uma época feliz pois se aproximava as festas de final de ano, me trazia um sentimento de impotência.
Nada tirava seu rosto sorridente de minha cabeça. Se era difícil superar uma tragédia, imagina lembrando-me sempre dele. As imagens se alternavam em minha cabeça, quando vinha seu sorriso, em seguida surgia a imagem dele no caixão e a certeza de que uma jovem vida havia sido cefeída.
Aquilo mexia comigo. Afinal, nesta idade em especial, parece que nada pode nos vencer, nada pode tirar nossa energia. Mas a morte se mostrava uma inimiga bem rígida. Sem classe, sem idade, sem cor ou credo. Todos igualmente teriam seu encontro com ela. E do meu namorado havia sido cedo. Poderia ter sido eu.
Um barulho esquisito me trouxe de volta a realidade. Dizer que meu estômago estava brigado comigo era um eufemismo. Parecia que todo dia eu levava um soco no estômago, e com isso minha saúde estava sendo comprometida. Foi num desses momentos de triste reflexão que decidi passear pelo parque para tentar me animar. O resulto foi pior, pois tudo me lembrava dos momentos de felicidade. Senti-me mal por um momento, e acabei desmaiando.
Como eu sei que perdi a consciência? Foi o que ele me disse.
Quem é ele? Não, não era meu falecido namorado, o que seria muito apavorante. Ele era a pessoa que me encontrou caída no parque durante a noite. 
Seu nome? Não sabia, ele não falava muito, só o estritamente necessário. Decidi chamá-lo mentalmente de M de mistério.
Onde eu estava? Também não sabia, mas estava tentando descobrir.
Minha cabeça doía muito. Toquei apalpando um inchaço grande.
Quando tentei me levantar, M me impediu. Logo entendi a razão de seu impedimento quando minha cabeça girou e o mundo girou com ela.
Onde estava? Naquele momento tudo estava confuso, estranho. Eu não tinha a menor ideia do local onde me encontrava, só sabia que estava deitada em algo bem confortável. Pelo toque da minha mão percebi ter um colchão com lençóis macios. Toquei meu corpo rapidamente tentando ter certeza que estava inteira. É, tudo de ruim se passou por minha mente atordoada. Na minha fronte havia um inchaço e minha cabeça doía muito. Minha respiração se alterou ao pensar que pudesse ter sido golpeada. Num impulso tentei me levantar e M me impediu. Logo entendi a razão do seu impedimento quando minha cabeça girou e o mundo girou com ela.
Acho que apaguei de novo, pois quando acordei, pude ver luz entrar pelas frestas da janela coberta por um pano muito escuro e espesso. Tentei ficar de pé. No mesmo instante M apareceu encapuzado e com um lenço amarrado sobre a boca indo até o pescoço. Estranhei, pois na noite anterior não tinha visto seu rosto e agora menos ainda. Minha cabeça passou a trabalhar a todo vapor. Lembrei-me que meus pais deviam estar preocupados. E eu nem sabia onde estava.
Encarei os olhos azuis claros de M que estavam assustados com meu movimento. Ele estendeu uma bandeja com uma xícara e alguns biscoitos.
__ Deve estar com fome. É para você. – Ele falava (era voz de homem) desviando o olhar.
Peguei a bandeja enquanto minha mente alternava entre o susto de ver um homem ali e a ignorância do meu paradeiro.
__ Obrigado... mas onde estou? – Minha voz parecia sumir enquanto eu falava.
__ Minha casa. – Ele era breve.
__ Como vim parar aqui? Quem é você? O que você vai fazer comigo? – Disparei tantas dúvidas de uma vez que senti minha cabeça zumbir. – Você é um sequestrador ou o que? – Coloquei a mão sobre o inchaço. - Ai minha cabeça.
Coloquei minhas mãos na cabeça tentando fazer aquele zumbido parar.
__ Coma primeiro. Depois explicarei. – Daqui a pouco essa conversa seria monossilábica.
Por incrível que possa parecer, eu não sentia medo dele, quem quer que fosse. Apesar de sério e sem muita conversa, M era tranquilo. O chá que ele havia preparado estava quentinho e era de erva doce, e os biscoitos eram uma delícia. Enquanto eu comia, M saiu do quarto que parecia ser o seu. Deduzi isso pelos tons escuros e ausência de qualquer objeto que remetesse a uma mulher. Era um quarto totalmente masculino e rústico, com móveis antigos de madeira escura e vernizada. Uma pesada cortina marrom cobria as janelas ocultas, parecia apenas um item de decoração literalmente. Um quadro simples de uma pintura antiga reproduzida em tons sérios como o preto e o grafite repousava sobre as paredes de cor marfim. Tudo no quarto carregava a seriedade como mensagem, exceto por um vaso solitário com uma margarida amarela.
Ao terminar meus biscoitos, levantei-me e caminhei até a porta, e vi outra porta que dava acesso ao lado de fora. Sem saber o que fazer, apenas caminhei rapidamente para a porta, tentando alcançar minha liberdade. Quando ia colocar meu pé na varanda, minha cabeça girou mais uma vez, e tombei, esperando o baque do meu corpo, que nunca veio. Abri meus olhos e vi ombros do lado da minha cabeça, e logo em seguida senti-me sendo erguida.
__ Teimosa! – Era M falando?
__ Eu... preciso voltar... não me machuque... o que...você quer? – Falar parecia ser mais difícil agora.
Ele nada respondeu, apenas baixou a cabeça e a balançou negativamente enquanto me colocava na cama novamente. Seu olhar transmitia um pouco de raiva e decepção.
__ Dá para falar alguma coisa. Quem é você? O que quer? Por acaso fui sequestrada? FALA!!! – Eu gritei enquanto fechava os olhos tentando fazer meu equilíbrio voltar.
__ Pode ir embora. A porta está aberta. – M só respondeu isso e saiu do quarto novamente.
Que droga! - Pensei.
Meus pais deviam estar preocupados e meu paradeiro era uma incógnita junto a identidade desse homem. Fiquei a todo minuto em vigília esperando que ele fizesse algo ruim, mas não apareceu em nenhum momento durante a manhã. Cansada, acabei dormindo. Despertei quando senti um aroma maravilhoso e a mão de M me tocando no braço. Na hora me assustei e me encolhi. Ele percebeu minhas emoções e novamente vi decepção brilhar nos seus olhos. Me estendeu uma bandeja com um prato de sopa de legumes e um chá gelado. Só então entendi o que ele estava fazendo. Sentei-me na cama e segurei a bandeja enquanto M ajeitava uma mesinha de apoio para mim.
__ Obrigada. – Falei envergonhada.
Provei a sopa que estava incrivelmente saborosa e acabou com a fome que me incomodava antes. O chá estava gelado no ponto certo e muito refrescante. Era hortelã.  Coloquei o copo na bandeja novamente, e M em seguida saiu sem dizer uma única palavra. Percebi que havia um banheiro onde fui fazer minha higiene.
Ao retornar ao quarto me assustei com M sentado numa poltrona com um olhar perdido. Ele parecia ter se acostumado com minha expressão de susto, pois dessa vez só deu um suspiro rápido e começou a falar:
__ Um amigo virá daqui a pouco de carro e levará você para sua casa, onde quer que seja... É só o que precisa saber. – Ele se levantou e saiu sem me dar chance de falar ou protestar.
Sentei-me na cama novamente tentando reuni tudo o que havia presenciado até ali, mas sem muito sucesso. O que se pode esperar da cabeça humana? Animais agem por instinto, certo? E homens agem por instinto e pela razão. 
Uma hora mais tarde M surgiu, sabe-se lá de onde, e curto como sempre, apenas me chamou.
__ Venha. – E novamente sumiu.
Tremi quanto ao que significava aquele chamado, mas tentei ser otimista, pois a aquela altura do campeonato, ele poderia ter me matado e não o fez. A esperança era última que morria, ou a que restou na caixa de Pandora, que fosse assim. Eu torcia para que ele cumprisse sua palavra.
Saí do quarto com calma. Dirigi-me para a porta que anteriormente havia visto, e vi de relance o casaco negro e bem cortado de M. Fui tremendo, passo a passo, tentando mudar todos meus pensamentos ruins. Despontando na porta, vi M conversando com um homem jovem que parecia preocupado. Aquele homem era aparentemente da mesma idade de M, mas de cabelos castanhos claros e bem curtos, e uma expressão leve e alegre.
Não falei nada, esperei me notarem, e assim aconteceu, quando o amigo de M me olhou intrigado e sorriu cumprimentando-me.
__ Boa tarde, senhorita.
__ Boa tarde. O senhor é o amigo dele? – Disse apontando para M.
__ Sim, me chamo Rian e vou leva-la para sua casa.
Ele me estendeu a mão para que o acompanhasse até o carro. M olhou de relance e voltou para casa, ainda envolto por seu casaco. Com os cabelos negros e de tamanho médio cobrindo parte do seu pescoço e com o rosto quase todo coberto pelo tecido negro de uma máscara exceto pelos olhos de um verde claro quase azul, agora eu via com clareza.
Observei que Rian tinha uma aparência distinta, vestido de terno chumbo e de bom tecido, assim como o carro negro que ele dirigia era com certeza de alguém bem sucedido. Fiquei curiosa para saber, mas preferi dessa vez não questionar sobre tais características. Rian deveria ser uma pessoa de posses. Assim imaginei.
Em silêncio, Rian percorreu o primeiro trecho. Pelo que entendi, estávamos num morro que era cortado por aquela estrada que levava a casa de M. Esse Morro começava ao lado do parque onde eu estava no dia anterior.
__ Rian, certo?
__ Sim.
__ Nem me apresentei. Meu nome é Alane. – Fitei-o sorrindo. - E lhe agradeço pela carona, mas não sei o que me aconteceu. Saberia me dizer como vim parar na casa dele?
Rian me olhou com uma expressão assustada com seus olhos castanhos se destacando pelo susto.
__ Esse meu amigo não tem jeito. Quer dizer que você não sabe de nada? – Neguei com a cabeça. – Tão antissocial como esse eu nunca vi. – Rian suspirou e tomou fôlego. -  Ele como você diz, te encontrou caída próxima a um banco no parque. Ele anda sempre por lá ao anoitecer, e você estava caída com um inchaço na cabeça. Acho que quis te ajudar, mas ele normalmente não mantém um diálogo com as pessoas desconhecidas há muito. Só eu converso com ele, quando vou visita-lo e levar seus pedidos.
__ Nunca soube de alguém vivendo nesse morro. Por que ele é assim?
__ Olha senhorita Alane, existem coisas que devem ficar no seu devido lugar. A história dele é uma dessas que não posso contar. Quem sabe um dia ele mesmo não te conte.
A conversa se encerrou ali numa tensão perceptível vindo de Rian. O silêncio foi apenas quebrado enquanto dava a direção da minha casa.






Capítulo 2 – Investigando o Senhor M.


Não preciso dizer que meus pais e alguns vizinhos estavam tentando me encontrar quando entrei na sala. Alguns no telefone, outros fazendo uma lista, suspeito que eram de pessoas que eu conhecia.
Olhei para minha mãe, que se espantou por me ver ali, fechando a boca duas vezes enquanto me olhava.
__ Ela está bem. Alane, minha filha, graças a Deus. – Correu para me abraçar como se meu retorno fosse um milagre.
__ Calma mãe, eu estou bem, calma. – Eu tentava me livrar das suas mãos que mais me apertavam. Ela queria ter certeza que eu estava ali?
__ Onde você estava menina? Onde passou esta noite?
__ Eu estou bem, mas quero tomar um banho e me deitar um pouco. Depois conto o que aconteceu.
Minha mãe me olhou com uma expressão, misto de alívio e curiosidade.
__ Negativo. Senhorita Alane, eu sou sua mãe e exijo uma explicação. - Sorri em resposta, e ela relaxou.
Esta era minha mãe. Sua preocupação já me era companhia sempre.
Em seguida vi meu pai agradecendo e dispensando cada um dos vizinhos. Em pouco tempo havia somente meus pais e eu naquela sala.
Eles me fitaram e não me deixaram ir para o quarto enquanto não respondi cada pergunta. Não tive sossego enquanto não dei explicações plausíveis para os dois.
Meus pais queriam agradecer ao tal homem que me ajudou, mas disse que ele não era de falar nada. Não que fosse mudo, mas era totalmente antissocial.
Apesar do perceptível descontentamento deles, consegui convencê-los de que era melhor assim. O que não disse a ninguém é que estava muito curiosa sobre ele.
Com a idade que eu tinha, é eu tinha dezoito anos quando tudo aconteceu, não entendia muito as relações sociais, ainda acreditava que a maioria das pessoas eram totalmente boas. E essa minha crença despertava uma curiosidade sobre as razões que levaram M a se isolar e se tornar tão antissocial e quieto.
E as palavras de Rian me inquietavam. Que história era essa que não deveria ser contada? Por quê? Era tão terrível assim? Eu iria descobrir a verdade mesmo que demorasse.


***

Esperei alguns dias até que todas as atenções se desviassem de mim e todos entendessem que eu estava bem.  Saí de minha casa pela manhã dizendo que ia visitar uma amiga e que ia passar o dia com ela. Caminhei até a entrada do parque e procurei a estrada que estava oculta por alguns arbustos. Só era possível vê-la se caminhasse até eles, pois sua disposição criava uma ilusão como se ela estivesse totalmente fechada pelas plantas.
Comecei a caminhar entre as árvores, tentando me camuflar entre as plantas, pois não queria que M ou Rian me vissem por ali.  Andei por algum tempo, até que avistei a casa de M, que estava toda fechada. Aproximei-me sorrateiramente como um felino à espreita da caça. Empurrei a mesma porta pela qual eu havia saído anteriormente, e ela incrivelmente estava destrancada. Com cautela, caminhei pela sala e vi a porta do quarto trancada. Talvez M estivesse descansando ou sei lá o que mais poderia estar fazendo. Caminhei pelo corredor, na parte da casa em que eu não havia entrado. Havia uma escada que dava acesso ao andar superior, e ao final do corredor vi uma porta aberta sendo iluminada pela pequena janela bem em frente ao corredor.
Estava entrando no cômodo e verificando a presença de alguém, quando senti uma mão tampar minha boca e outra segurar meu corpo.
A adrenalina correu a velocidades extremas por minhas veias naquele momento. Tentei me soltar, mas quem me segurava era muito forte. Olhei para a mão e percebi a presença de uma luva. Naquele mesmo momento ouvi uma voz grave e controlada.
― O que você está fazendo aqui? ― era M com certeza.
Eu tentei falar, mas só saíram barulhos indecifráveis.
― Tudo bem! Vou soltá-la, mas me promete que não vai reagir?
Assenti com a cabeça e M me soltou devagar.
Respirei fundo, ainda assustada e brava com ele.
― Você quase me matou de susto e, depois, por falta de ar. É assim que você recebe as visitas? – fiz cara de emburrada.
M deu uma gargalhada alta e extravagante. Seu rosto estava coberto, e só consegui ver seus lábios se contorcendo pela risada.
― Que eu saiba, não te convidei para entrar em minha casa. E você a invadiu como um ladrão. Eu sei me defender nesses casos ― M falou mais dessa vez do que falara no dia em que eu estivera em sua casa.
― Olha só! Você sabe rir. Curioso! ― Estava boquiaberta com a cena. ― E você não convida ninguém para vir na sua casa, certo? Resolvi vir por conta. – Sorri debochada.
― Eu sei muitas coisas, mais do que a senhorita deve sonhar em conhecer. E já passou pela sua cabeça que eu talvez não queira visitas?!
Ele me fitou sério, sem desviar o olhar momento algum. Pude ver novamente o brilho de raiva e decepção queimar nos seus olhos.
― Ei, tudo bem. Não precisa ser rude, afinal só vim aqui te agradecer por ter me ajudado, já que, naquele dia, você parecia de mau humor ― virei às costas para M e fui caminhando para o cômodo em frente e me sentei numa das poltronas.
Aquela era a biblioteca da casa, e superava muitas bibliotecas estaduais. Era aconchegante e com a iluminação certa. Um lugar agradável para passar algum tempo.
― Bela biblioteca! ― eu disse sem olhar para M, só admirando o ambiente.
― Obrigado. Eu me esforcei para juntar todas essas obras ― um sorriso surgiu tímido nos lábios de M. ― Agora, já que me agradeceu, deve ir, pois logo vai ficar tarde. E não...
― Ainda está de manhã... está me mandando embora?
― É o que parece.
― Por que você é assim? Tão antissocial, fica se excluindo e excluindo quem quer se aproximar.
Vi seu olhar perder o brilho. Tentei entender o motivo, mas nada fazia sentido. Então algo surgiu na minha cabeça criativa.
― É por causa disso? ― apontei para o rosto encoberto. ― O que você esconde? ― aproximei-me tentando tocá-lo, curiosa com a possibilidade.
Senti a mão de M segurar a minha firmemente.
― Não! Não é problema seu. Isso é coisa minha. – Ele se afastou rapidamente. - Não quero ninguém se intrometendo. E agora chega! Vá para sua casa.
― Não vou! Você vai ter que me aturar, seu eremita. É por isso que não tem ninguém aqui com você.
Sentei-me mais confortavelmente na poltrona, enquanto alcançava um livro na mesa ao lado.
― Hamlet? ― perguntei para M.
― Sim. Um clássico! Fica à vontade, então. Eu vou para o meu quarto. – M suspirou derrotado. - Quando terminar de me investigar, pode fechar a porta da frente, por favor?!
Apenas assenti. Pensei na ideia que ele havia acabado de me dar. Se ele não queria me contar por bem, eu descobriria por conta própria mesmo. Comecei a vasculhar os livros que estavam por cima da mesa.  Grandes autores que iam desde Maquiavel até Alexandre Dumas passando por Emily Brönte e Shakespeare. Mas o que me chamou atenção foi um pequeno caderno revestido de tecido floral, onde havia poemas escritos numa letra cursiva linda. Com cuidado, manuseie as folhas à procura de um nome. O único que encontrei perdido na última folha era “Jane”. Fiquei pensando se era alguém que ele conhecia ou alguma autora como Jane Austen.
Puxei alguns outros livros mais manuseados, procurando por nomes, mas não encontrei nada. Até que vi um exemplar da Bíblia. Corri para abri-la e, logo na primeira folha havia uma dedicatória escrita à mão. Dizia assim: “Mathias, filho amado. Que esta Bíblia seja luz para seu caminho. Sua mãe Joana”.
Seria M esse filho citado? Pensando na possibilidade, criei uma pequena armadilha mental. Depois de um tempo mais mexendo nos livros sem sucesso, percebi que o horário estava avançado, e decidi retribuir a bondade de M pelo dia que fiquei na sua casa.


***


Caminhei até a cozinha que ficava ao lado da sala de estar. Olhei no refrigerador e no armário, e escolhi meu cardápio. Cozinhar não era meu talento mais destacado, mas sabia fazer algumas coisas. Preparei um pouco de arroz, e, enquanto ele cozinhava, fui picando algumas ervas como salsinha, cebolinha, páprica e alguns legumes. Peguei alguns ovos e bati com pedaços de queijo e depois adicionei as ervas. Era uma omelete deliciosa e rápida de preparar. Misturei ao arroz um pouco de ervilha e milho, e preparei uma salada verde e bem fresquinha.
Como havia muitos tipos de chás diferentes no armário, decidi preparar um pouco de chá gelado para refrescar depois da refeição. Arrumei a mesa e fui chamar M para o almoço. Bati na porta no ritmo de uma música, até que ele respondeu:
― Algum problema?
“Mas que mal humorado ele é!”
― Sim! Fiz o almoço e ele está começando a esfriar. Estou esperando por você na mesa, tudo bem?
Ouvi-o murmurar algo, muito irritado, mas não me importei.
― Sim, senhora! ― dei risada da forma irônica como ele respondeu.
― Assim é que eu gosto. Obediente ― ri alto da cara que ele deveria estar fazendo.
Voltei à cozinha, quando senti que estava sendo observada. Quando olhei, tomei um susto tão grande que seria capaz de matar qualquer um que não tivesse uma saúde impecável.
― Ahhhhhh! ― coloquei minha mão sobre o peito, tentando acalmar minha respiração. ― Está louco? Quer me matar? Como veio tão rápido?
M estava à porta da cozinha, escorado, braços cruzados na altura do peito, me fitando com surpresa, raiva e... um tanto de humor.
― Estava o tempo todo atrás de você. E quem está invadindo a minha casa é você, então não deveria ser surpreender comigo.
Olhei indignada para seu olhar de diversão. Estava se divertindo à minha custa. Pensei imediatamente o que faria para tirar aquele riso de sua boca.
― Mathias? ― chamei como quem chama alguém da família.
― Sim? ― ele respondeu no ato, quase como reflexo.
― Então esse é seu nome, ranzinza. Mathias! Suponho que sua mãe se chame Joana.
M, que se chamava oficialmente Mathias, estava paralisado, seus lábios estavam pálidos. Pensei que ele ia passar mal, mas reagiu, fechando os olhos e os punhos como se controlasse algum sentimento forte.
― Como descobriu isso? ― me perguntou entre dentes. ― Deve ter sido o Rian, não é?
Neguei com um gesto da cabeça. Fiquei um pouco séria com a reação dele, com medo mesmo.
― Não foi seu amigo. Ele não falou nada comigo, apenas que você é muito reservado mesmo. Mas não vou te provocar mais. Vamos almoçar enquanto não esfria totalmente a comida. Eu não sei o que gosta, mas...
― Qualquer coisa serve... obrigado por ter cozinhado ― ele pareceu um tanto quanto desconcertado.
Mathias se sentou à mesa enquanto eu servia o chá gelado. Começou a se servir até que tivesse colocado um pouco de tudo que tinha na mesa. Fiquei observando seu modo elegante de manusear os talheres, e pensei que aquilo fosse indício de uma boa educação. Mas nem na hora de almoçar ele tirou a luva que cobria a mão direita ou descobriu o rosto completamente.
― Você fica todo coberto assim quando está só? ― eu disse, concentrando-me na minha refeição.
― Curiosa, não é senhorita! Nem sempre, às vezes fico só com o casaco. Por quê? ― falou me fitando.
― Como você disse, apenas curiosidade.
― Não tem medo que eu faça algo com você? Não me conhece, posso ser um assassino, um sequestrador...
― Claro, morro de medo... um assassino teria me socorrido no parque, e um sequestrador teria mandado o amigo me levar para casa... com certeza você é um perigo... ― estava debochando da imaginação dele.
― Além de curiosa, é debochada. O que mais a senhorita é?
― Alane!
― Como disse?
― Vamos parar com esse “senhorita”. Meu nome é Alane. – Falei quase soletrando. -É, digamos que sou persistente, muito persistente, e tenho uma péssima notícia para você.
― E qual é, Alane? – me perguntou sem me olhar.
― Mathias, eu vou descobrir o porquê de sua reclusão. Uma pessoa com seus modos, cultura e inteligência não foi criada reclusa assim. E na cidade, nunca ouvi falar de você ou sua família. Sabe que a cidade é pequena.
― Boa sorte então! – Comeu mais uma garfada. - Sua comida é muito boa ― Mathias provou mais. ― Você não devia estar em casa aprendendo a fazer essas tarefas domésticas para quando se casar? Devia se preocupar em encontrar e agradar um marido ― ele falava ironicamente.
― Ei, você acabou de elogiar minha comida e vem dizer isso. E outra, não pretendo ser dona de casa, quero estudar, ter um negócio próprio. Você é muito machista. Os costumes estão mudando, ouviu? ― falei indignada com sua posição muito antiquada para mim. ― É isso! Vou trazer jornais e revistas para você se inteirar do mundo. – Falei com estalo que me ocorreu.
Vi os olhos de Mathias se arregalarem diante de algum pensamento. Dei uma gargalhada vendo que o todo controlado Mathias estava apavorado com algo.
― Que foi? Por que essa cara de espanto? ― gargalhei mais um pouco.
― Você vai vir aqui novamente? Não veio só para agradecer?
Ao entender o motivo do espanto dele, ri mais ainda. Sabe, um fato que sempre constatei é que é melhor as pessoas terem algum tipo de sentimento do que serem totalmente indiferentes. Ou seja, eu o incomodava, isso queria dizer que ele não me era indiferente.
― Sabe, eu vim só para agradecer, mas...
― Mas o quê? – Sua expressão era séria.
― Calma! É por esse seu comportamento esquentado que vou vir te visitar mais vezes. Você precisa conviver com pessoas para deixar de ser tão calado, recluso. E digamos que conviver só com Rian não adianta muito, afinal ele é homem e não deve se incomodar muito com o jeito com que você o trata.  Mas eu vou me incomodar muito e vou te incomodar se continuar com esse comportamento.
Mathias balançou a cabeça como se tivesse se rendido. Sorri imaginando o que se passaria na sua cabeça.
― Para me livrar de você vou ter que ser do seu modo?
― Não, para você se livrar de mim, terá que se tornar sociável.  Nada de irritação quando eu vier te visitar, nem com o Rian, que é seu amigo tão leal. Agora termine de comer.
Não falei mais nada até o final do almoço. De vez em quando olhava para Mathias, que estava compenetrado, pensativo.  Terminei meu almoço e tomei meu chá de camomila. Vi Mathias terminar seu almoço e retirar seu prato.
― Pode deixar que eu retiro a louça e a lavo ― falei sorrindo para ele.
― Não! Eu faço. Minha punição não é ser sociável? Então você cozinhou, e eu limpo. Está bom assim?!
― Ótimo! É melhor não resistir mesmo ― sentei-me e fiquei observando sua destreza.
Foi nesse momento que o vi tirando a luva. Ele rapidamente pegou os pratos, atrapalhando minha visão. Curiosa como estava, tive a brilhante ideia de ir secar a louça, assim teria a visão privilegiada.
Levantei devagar e peguei um pano de louça que estava no armário. Aproximei-me da pia, pegando o primeiro prato do escorredor e secando devagar. Mathias se assustou comigo ao seu lado.
― O que você está fazendo?
― Óbvio! Estou te ajudando. Isso se chama cortesia ― mentira, era curiosidade mesmo.
Ele voltou a se concentrar na louça novamente. Enquanto secava, eu lançava o olhar disfarçadamente sobre a mão agora exposta de Mathias. Tentando não revelar nada na minha expressão, tive a visão total da mão dele. A pele que a cobria era formada por um emaranhado de cicatrizes repuxadas. A cor da pele nessa mão era mais avermelhada do que da mão que ficava descoberta. O aspecto era de uma grande cicatriz profunda. Usei toda minha força para não demonstrar nem terror nem pena. Sentia compaixão, pois fiquei imaginando as dores que ele passara quando desse evento. Como já havia pressionado demais, preferi não tocar no assunto. Quem sabe ele revelasse mais depois.
Ao terminarmos o serviço, Mathias secou bem as mãos e vestiu novamente a luva na mão cicatrizada. Olhei a janela da cozinha e percebi que havia um pomar bem atrás da casa. Vi laranjeiras e umas duas mangueiras carregadas de frutos. Alguns abacaxizeiros e muitas ramas de abóboras se espalhavam no chão.
― Posso ir lá? ― apontei para o pomar pela vista da janela.
― Pode! Mesmo que eu dissesse não, você iria assim...
― Shiu! Cortesia, lembra? Sociável também ― falei, mandando-o se calar.
― Sim, Alane, pode visitar o pomar, fique à vontade. Se quiser pode apanhar algumas frutas também ― Mathias falava sem emoção alguma.
― Obrigada! ― Me dirigi à porta da sala e ouvi um murmúrio.
― Não sei por que ela pede se não vai aceitar um NÃO!
Apesar de falar baixinho, foi o suficiente para eu ouvir a reclamação de Mathias.
― Eu ouvi isso, seu ranzinza.
Só ouvi um suspiro de rendição, e ri da cena.

Eu, uma garota que mal estava saindo da adolescência, ensinando um pouco de cortesia para um homem feito. Nesse momento, enquanto caminhava em direção ao pomar, comecei a especular comigo sobre a idade de Mathias.

“Se fosse levar em conta os seus modos, diria que era velhinho sofrendo problemas de saúde. Suas roupas ou sua casa não davam muito margem para discussão. Tudo era antigo, mas com elegância e sobriedade. Sua aparência não me diria nada, pois ele sempre estava coberto, se escondendo.
Pensando em tudo que girava em torno de Mathias, meus pensamentos me levaram para o dia do acidente do meu namorado.
Ele era um jovem cheio de vida, alegre e lindo. Aparentava até ser mais jovem do que sua real idade pela felicidade que exalava. Infelizmente, numa noite de chuva, tudo isso não significou mais nada.
Levou tempo até eu entender por que, naquela noite, naquele carro, ele se fora e eu não sofrera mais que escoriações. Ele havia perdido a direção numa curva próxima da casa dele nos arredores da cidade, e chocara o carro com um poste de eletricidade. O impacto fora em cima dele. Por muitos dias eu ficara pensando que ele talvez tivesse tentando me salvar, batendo forte no seu lado. Pensara que, se eu tinha sido salva naquele final fatídico, seria por algum motivo, e talvez ajudar Mathias seria uma missão a ser cumprida por mim.
Incrível era que eu só havia deixado de pensar nessa tragédia enquanto estivera ali, na casa de Mathias. Sorri com ideia de que ele tivesse me ajudando mais a superar meu trauma e tristeza do que eu o estava ajudando a superar sua aversão a pessoas.”

Ao chegar ao pomar, vi algumas cestas em cima de um andaime. Vasculhei uma delas, e estava bem limpa. Com a cesta em mãos, comecei a observar as árvores e plantas do pomar. Vi algumas mangas maduras prontas para serem colhidas. Apanhei algumas laranjas, um abacaxi que estava amarelo, e vi que algumas abóboras logo estariam no ponto de colher. Caminhei pelo entorno do pomar e vi algumas flores nativas. Eram de uma beleza simples, mas que enchia os olhos com admiração. Colhi algumas para dar mais vida àquela casa tipicamente masculina.
Já era cerca de três horas da tarde, e com as frutas em mão, tive uma ideia que fazia qualquer um ficar feliz. Sempre que minha mãe fazia bolo de frutas, eu ia até cozinha seguindo a trilha do aroma maravilhoso. E era tão prazeroso saborear um bolo desses à tarde, que qualquer tristeza e problema era esquecido. Pelo menos temporariamente.
Mathias estava sentando numa cadeira na varanda lendo algum livro quando me viu. Sorri para ele, mas esse só revirou os olhos me desaprovando... pelo quê? Ele não tinha jeito mesmo!
― Quanta educação, Sr. Mathias. Eu colhi várias frutas com o maior cuidado para você, e me recebe assim. Estou vendo que vou ter que vir muitas vezes aqui, não é?
Ele começou a revirar os olhos, mas parou de súbito. Dei risada dele, que abriu a boca para falar algo, mas desistiu de imediato.
― Bom rapaz! É assim mesmo. Você pode pensar o que quiser de mim, mas ser educado não custa nada e resolve muitos problemas.
Não ouvi nenhuma resposta. Mathias voltou a ler, ignorando minha presença. Fui direto para a cozinha, onde comecei a separar os ingredientes para o bolo que minha mãe havia me ensinado a fazer. Por algum motivo que desconhecia, não havia uma batedeira ou liquidificador, mas achei um batedor manual. A massa não era pesada, então bati sem muito esforço. Era um bolo de laranja com abacaxi e erva doce. Enquanto o bolo assava, descasquei o abacaxi, picando metade e deixando metade para cortar em rodelas. Juntei o abacaxi bem picado, açúcar e um pouquinho de água. Deixei levantar fervura na panela que havia colocado no fogão. Logo havia uma geleia de abacaxi pronta para rechear o bolo. Depois que o bolo havia esfriado, cortei-o no sentido horizontal.
Com a geleia, recheie o bolo, decorando com pedaços de abacaxi. Preparei chá, dessa vez quentinho, e arrumei a mesa para um lanche da tarde. Cortei o restante do abacaxi em rodelas para acompanhar, já que uma fruta sempre ia bem com tudo.
Fui chamar Mathias, que havia cochilado na cadeira da varanda com o livro nas mãos. Aproximei-me para acordá-lo quando percebi que ele estava tão quieto e indefeso que eu poderia facilmente levantar o tecido que cobria seu rosto.
Levei minha mão hesitante até tocar no tecido, mas fui surpreendida pela mão de Mathias, que me segurou firme pelo pulso.
― O que você acha que está fazendo? ― seus olhos faiscavam de raiva.
― Des-desculpa... ― senti medo pela sua reação.
― Nunca mais faça isso! Ouviu? ― assenti apavorada. ― Se está coberto é porque não deve ser visto, entendeu? ― concordei novamente. ― Quer alguma coisa?
― Vim te chamar para comer um bolo que fiz. Você me assustou.
― Sabia que ser cortês é não se intrometer nos assuntos dos outros?
Balancei a cabeça concordando, fiquei sem energia para revidar.
― Você vem? O chá está esfriando... ― eu já estava cabisbaixa.
Mathias se levantou rapidamente da cadeira e caminhou até a cozinha, onde o encontrei sentado se servindo do chá. Tentei me acalmar e fazer minha pulsação diminuir um pouco.
― É chá de erva cidreira. Ótimo para acalmar os ânimos ― Mathias falava ironicamente. ― E o bolo é de...?
― Quero que descubra ― falei muito séria.
Cortei um pedaço e o coloquei num prato de sobremesa junto com uma colher. Estendi o prato até Mathias, que o pegou sem muito rodeio. Ele partiu o primeiro pedaço com a colher e o comeu, sem me olhar. Alguns minutos depois vi lágrimas umedecerem seus olhos e um gemido escapou de sua boca, gemido de saudade, de dor. Sim, eu conhecia aquele tipo de som inconformado, pois aqueles haviam sidos meus companheiros nas últimas semanas, depois da morte de meu namorado.
Arregalei os olhos, tentando entender por que agora ele estava tendo essa reação. Tomei um pouco de chá, tentando achar palavras para acalmá-lo, mas nada me vinha à cabeça. Encarei-o um pouco, até que ele me fitou e entendeu minha dúvida, e, mais disposto do que jamais havia estado comigo, começou a falar como se estivesse se libertando da saudade de alguém ou algo, não sei ao certo.
― Minha mãe sempre fazia bolos para nós. À tarde sempre havia aroma de bolo pela casa. E minha mãe fazia um de laranja parecido com esse ― um soluço cortou a frase. ― Não sei quantos anos faz que eu não como bolo, principalmente um tão bom como esse.
Apesar de minha vontade ser de debochar dele, a dor e a seriedade expressas em sua voz me fizeram ter um pouco mais de sensibilidade, cortesia também. Sorri contidamente enquanto formulava algo para falar.
― Então você descobriu. É de laranja mesmo. O que mais tem?
― Abacaxi. Senti gosto de algum chá, mas não me lembro qual ― Mathias sorriu sonhador.
― É erva doce... – Fitei-o descrente - Não acredito nisso! Você sorriu? – Ai não, vou ter que correr pois vai chover granizo por causa do seu sorriso ― eu ri.
― Não entendi...
― Você sorrir deve ser mais raro do que chuva no deserto do Atacama. Por isso é capaz de haver uma catástrofe por causa dessa raridade.
― Alane, nada vai estragar o momento de alegria que estou sentindo agora ― ele deu outra colherada no bolo.
Estendi a mão em forma de cumprimento para ele.
― Amigos? ― fiquei a espera de sua resposta.
― Ok, amigos ― e voltou a saborear o bolo.
Depois do lanche, arrumamos a cozinha. Percebi que estava tarde e que eu devia ir embora.
― Mathias, eu vou te deixar em paz agora, viu? Boa noite! ― falei dando um tchau com a mão. ― Ah, guarda o bolo na geladeira para não estragar. As frutas que colhi já estão na geladeira e limpas. E amanhã haverá algumas abóboras maduras nas ramas para você colher.
― Ok, Alane. Obrigado por tudo ― senti sinceridade em seu cumprimento.
Caminhei pela estrada rapidamente. Era noite quando cheguei a casa, e todos estavam jantando na sala. Depois de me refrescar, fui à sala, onde enrolei mais do que comi. Também, depois de comer tanto bolo e fruta, não tinha como caber mais nada em meu estômago.