terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O Despertar do Amor

Olá lunáticas. Gostaria de agradecer à Cinthia pelo espaço. E às demais, apresento o romance que estou postando no Wattpad atualmente. Segue sinopse, link e alguns capítulos. Espero que gostem. Muitos beijos.




SINOPSE: 


O empresário Patrick Baker é considerado um dos homens mais poderosos e influentes dos Estados Unidos, por presidir a empresa que o pai fundou há anos, transformando-a em um verdadeiro império.
Apesar de se relacionar com as mulheres mais lindas da alta sociedade, aos trinta e cinco anos de idade Patrick não tem planos de se casar ou constituir uma família, o que gera o risco de que não haja um herdeiro para garantir que os negócios continuem na família, já que é filho único.
Preocupado com essa situação, seu pai o encurrala contra a parede, dando-lhe duas opções: ou Patrick se casa e permanece no matrimônio até lhe garantir um neto, ou ele doa suas ações ao terceiro maior acionista da empresa, o sobrinho ambicioso Derek Jones, tornando-o assim presidente.
Patrick pode se casar com qualquer mulher que desejar, já que pretendentes não lhe faltavam, entretanto, como nunca foi um homem de se deixar dominar, escolhe uma jovem de origem latina e humilde, para ser sua esposa, com o objetivo único de confrontar o pai, ao mesmo tempo que garante seu lugar na presidência.  
Porém, Patrick não esperava que por trás daquele macacão tosco de operária braçal e daquele rosto pálido, podia existir uma mulher intrigante, capaz de afetá-lo muito mais que qualquer outra que ele já conheceu. 



CAPÍTULO I


Apertei a borda da mesa entre meus dedos, com toda força, como se isso fosse capaz aplacar a raiva que passeava solta dentro de mim, queimando em minhas entranhas, enquanto ouvia meu pai falar comigo com aquela rispidez que eu detestava, mas que fazia parte dele. Observava-me com seus olhos enrugados, carregados de uma insuportável autoridade, sem que tivesse esse direito, ou mesmo de ocupar meu lugar na cabeceira da mesa, o lugar de presidente, já que deixara os negócios em minhas mãos há quase vinte anos, para se dedicar exclusivamente a viver um romance com uma garota que tinha idade para ser sua filha. 
Se não fosse por mim a Without Company ainda seria uma pequena agência de seguros em uma sala alugada de um prédio arruinado e não a companhia que geria várias empresas subsidiárias na qual eu a havia transformado durante toda uma vida dedicada aos negócios.
No entanto, depois de todo esse tempo, ele se achava no direito de vir a mim, ameaçar entregar sua parte nas ações à Derek, meu primo, que nada fazia de relevante ali dentro, caso eu não arranjasse uma maldita esposa e lhe desse um maldito neto.
O que o matrimônio tinha a ver com os negócios? Se ele queria um neto que arranjasse uma mãe de aluguel para receber o meu esperma por meio de inseminação artificial e não me obrigasse a casar como estava tentando.
_ Nem por um minuto, deixe passar pela sua cabeça que sou incapaz de fazer o que estou dizendo. _ Sua voz áspera ecoou pela imensa sala de reuniões, onde havia lugar para uma dúzia de pessoas, mas apenas nós dois nos encontrávamos, despertando-me dos pensamentos. Era a única pessoa na face da terra que se atrevia a falar comigo naquele tom. _ Você tem uma semana para se casar, ou darei as minhas ações à Derek. Embora não seja meu filho ele também é da família e mesmo sendo mais novo que você já constituiu uma família, tem filhos que garantirão que nossos negócios não irão parar nas mãos de estranhos futuramente.
_ Se os filhos forem inúteis como ele, a empresa terá mais futuro sendo doada aos mendigos da Wall Street. _ Continuei tratando o assunto com deboche, pois não havia um argumento minimamente sério para rebater um absurdo daqueles.
_ Já chega! _ Ele gritou, esmurrando a mesa com o punho cerrado. _ Você não me deixa fazer parte da sua vida, mas a acompanho pelas manchetes nos jornais e sei que tem um exército de mulheres lindas e ricas à sua disposição. Então escolha uma delas e se case. Não estou te pedindo nada de mais. Depois que o meu neto nascer, você se separa, já que prefere viver na farra, com uma mulher diferente a cada semana. _ Ele se levantou, pegando sua valise, ajeitando o paletó, pronto para sair. _ Não se esqueça: você tem uma semana. Não voltarei a falar sobre esse assunto. Se não cumprir o que estou ordenando, Derek será o presidente da Winthout Company e você será rebaixado ao cargo dele.   
Sem mais, deixou a sala, caminhando devagar, com a postura curvilínea dentro do terno caro. Apesar dos seus setenta anos, tinha passos firmes que ecoavam pela sala enorme.
Fiquei imóvel, paralisado no lugar, a raiva pulsando quente em minhas veias. Minha vontade era de quebrar tudo à minha volta.
Então era isso? Todos esses anos de dedicação constante ao trabalho não significavam nada diante do fato de que eu não desejava me casar ou ter filhos? Eu não tinha nada contra quem se submetia ao matrimônio, apenas não o desejava para mim e tinha minhas razões para isto.
Movendo-me mecanicamente, levantei-me e caminhei até a janela ampla, observando o ápice dos edifícios que se estendiam até onde as vistas podiam alcançar no movimentado centro de Nova Iorque, as lembranças do passado teimando em tomar-me os pensamentos, sem que eu pudesse evitá-las. Eu ainda podia visualizar claramente o rosto dela, a forma como me encarou quando descobri tudo. Suzan Finn definitivamente era a razão pela qual eu desisti do amor, ou mesmo passei a desacreditar na existência dele. Portanto não havia razão para que eu colocasse outra mulher em minha vida para algo mais que algumas noites de se.xo.   
Entretanto, agora era necessário que eu me casasse, por causa da chantagem daquele maldito velho ridículo esclorosado, pois não podia permitir que Derek tomasse o meu lugar na empresa, não apenas porque era um incompetente, mas porque dei duro para que a Without Company chegasse onde chegou, embora aquele imbecil do meu pai não reconhecesse meus esforços.
Inferno! Por que ele não engravidava aquela idiota com quem se casou e tinha seu próprio herdeiro? Por que não teve mais filhos com minha mãe se pretendia que seus negócios estivessem sempre na família? E se eu fosse um roqueiro que preferisse sair pelo mundo tocando em uma banda, o que ele ia fazer com a companhia?
Sua chantagem me enfurecia cegamente, principalmente porque não havia nada que eu pudesse fazer a respeito, não podia confrontá-lo, estava coagido, da forma como jamais me permitia estar, como não tinha o costume, pelo contrário eu era o homem que coagia a todos a fazerem exatamente o que eu queria, tanto nos negócios quanto na vida pessoal. E agora aquele maldito me colocava em uma situação de humilhação e desvanecimento que eu abominava, tirando proveito do fato de que era o segundo maior acionista da companhia. 
Dominado pela raiva, atravessei a porta que dava acesso à minha sala e fui direto para o frigobar no canto do amplo cômodo em busca de uma dose de uísque, quando finalmente perdi o controle sobre mim mesmo e atirei a garrafa com a bebida contra a parede, com violência, estilhaçando-a, o liquido marrom manchando a parede marfim e os estofados brancos, os cacos de vidro voando para todos os lados.  
No instante seguinte houve uma leve batida na porta e esta se abriu para que Jennifer entrasse, seus olhos azuis claros varrendo a bagunça dos cacos de vidro antes de focarem meu rosto.
_ Sr. Baker a reunião com os franceses será em dez minutos. _ Disse, polidamente.
Jennifer era minha secretária há cinco anos, além de inteligente e eficiente, era dona de uma beleza encantadora, com seus cabelos loiros, longos sempre bem cuidados, sua pele rosada e um corpinho cheio de curvas deliciosas que eu conhecia muito bem, já que a comia de vez em quando durante o expediente. Se casaria comigo sem pestanejar se eu lhe pedisse e seria uma esposa perfeita para um homem na minha posição, entretanto, eu precisava de uma mulher que não se envolvesse, que conseguisse entrar e sair daquilo com a plena consciência de que não passaria de um negócio passageiro e Jennifer era romântica e sentimental demais para isto, tentaria me prender ao seu lado.
_ Cancele. Não estou com paciência para isto. _ Abri outra garrafa de uísque e servi-me da bebida, enquanto Jennifer me observava cautelosa, claramente tentando decifrar o que acontecera entre mim e meu pai.
Embora estivesse acostumada a me ver tenso depois de receber uma visita dele, nunca antes me vira naquele estado, sabia que a coisa era grave.
_ O senhor precisa de alguma coisa?
_ Não. Apenas mande alguém limpar essa bagunça e me deixe em paz.
_ Sim senhor.
Ela deixou a sala visivelmente contrariada pelo fato de eu não lhe permitir penetrar a barreira que eu estabelecera ente nós dois, como estabelecia entre mim e todas as mulheres com quem saía, para evitar que tentassem uma proximidade que fosse além da cama.
Afrouxei o nó da minha gravata e sentei-me atrás da minha mesa, girando a cadeira para observar Nova Iorque às minhas costas, embora não a enxergasse realmente, minha mente enevoada pela raiva, meu corpo tomado pela insuportável sensação de impotência.
Não demorou muito para que a porta se abrisse novamente e a faxineira entrasse, carregando seus utensílios de limpeza. Cumprimentando-me com um rápido aceno de cabeça antes de se curvar para limpar a bagunça que deixei quando atirei a garrafa.
Sem compreender o porquê, passei a observar aquela criatura tão insignificante, vestida com um macacão tosco de operária braçal, ligeiramente masculino. Tinha os cabelos castanhos claros presos em torno da cabeça com alguns fios soltos caindo sobre o rosto pálido, desprovido de qualquer maquiagem. Ela era de origem latina e parecia fazer seu trabalho com dificuldade, parecendo desajeitada, sem jeito, como se estivesse nervosa porque eu a observava.
Continuei olhando para ela, enquanto ingeria letamente meu uísque, o liquido escorregando macio pela minha garganta seca, me fazendo relaxar lentamente, até que, subitamente algo me ocorreu: eu poderia me casar com aquela garota, uma faxineira suburbana e latina, seria o mesmo que dar um soco no estomago do meu pai, já que ele abominava qualquer ser humano que tivesse uma posição social minimamente inferior à nossa. Dar a ele um neto descente de alguém como aquela garota, seria a melhor forma de fazê-lo pagar por me chantagear, ao mesmo tempo que garantiria meu lugar na presidência, já que ele não fizera nenhuma exigência a respeito de como deveria ser ou a que classe social deveria pertencer minha futura esposa. 
Meus lábios esticaram em um sorriso, de pura satisfação, à medida que a idéia amadurecia em minha mente.  
Antes de mais nada eu precisava saber quem era aquela garota. Havia a possibilidade de que fosse casada, já que as pessoas de origem humilde costumavam se casar muito jovens e ela parecia ter cerca de vinte anos.
Eu me lembrava vagamente de tê-la visto algumas outras vezes fazendo a limpeza por ali, mas como não prestava muita atenção, não tinha noção de quem era ou de quanto tempo trabalhava na companhia.    
_ Qual o seu nome? _ Perguntei.
Ela levou um susto com o ressoar da minha voz e parou o seu trabalho pra percorrer o olhar à sua volta, como se procurasse por outra pessoa, a quem porventura eu pudesse ter me dirigido. Só então, fixou seus olhos castanhos em mim.
_ O meu? _ Indagou, meio incrédula.
_ Você está vendo mais alguém nesta sala? _ Eu estava furioso demais para ter paciência e acabei exagerando na rispidez.  
Imediatamente e face dela corou, ficando muito vermelha, uma reação espantosa, considerando que as mulheres hoje em dia não se abalavam tão facilmente.
_ Fernanda.
_ Só Fernanda?
_ Fernanda Vieira. _ Ela quase não tinha sotaque, ainda assim eu sabia que não era americana. 
_ De onde você é?
_ Do Brasil.
Aquilo era mais que perfeito, já que o Brasil era considerado pelo meu pai um enxame de prostitutas e traficantes. Ele a julgaria um ser muito inferior, totalmente inapropriada para se tornar a mãe do neto que tanto desejava, mas teria que aceitá-la, pois foi a minha escolha e essa seria a forma de fazê-lo pagar por ter me subjugado à sua vontade.
Seria olho por olho.
_ Há quanto tempo você trabalha aqui, Fernanda?
_ Há sete meses.
Eu não podia simplesmente jogar meu charme naquela garota, fingir que estava interessado nela e logo depois pedi-la em casamento. Eu tinha apenas uma semana, não era suficiente para convencê-la de que se tratava de um casamento por amor, embora tivesse certeza de que ela não recusaria a uma proposta dessas.
Seria mais sensato deixar claro que tudo não passaria de um negócio, mas antes eu precisava investigá-la, saber quem era de fato e me certificar de que aceitaria fechar o acordo antes de propô-lo.
_ Pode ir Fernanda. Se precisar de alguma coisa te chamo.
Ela me encarou em silêncio por um instante, como se me sondasse, o que me incomodou um pouco, pois tive a impressão de que sabia que havia algo mais que uma simples dispensa por trás da minha ordem, como se fosse capaz de enxergar através de mim. Depois, percorreu os olhos pelos cacos de vidro ainda espalhados pela metade no chão e quando esperei que contestasse, alegando que precisava terminar o trabalho, simplesmente juntou suas coisas e saiu, acatando prontamente a ordem.
Aparentemente se tratava de um ser humano nada previsível, o que era cada ver mais raro de se encontrar.
No instante em que a porta se fechou atrás dela, telefonei para Thomas, o chefe dos recursos humanos, pedindo sua ficha completa, que veio por e-mail vinte minutos depois.  
De acordo com o documento, Fernanda veio trabalhar na Without para substituir o pai, Francisco Vieira, que assinou um contrato de quatro anos com a companhia em troca do seu visto de permanência e de toda a família nos Estados Unidos, mas que após trabalhar dois anos e meio contraiu uma doença degenerativa na coluna, tornando-se inválido para o trabalho braçal, de modo que a filha veio cumprir o restante do contrato para não perderem o visto.
Além do pai, morava com a mãe e uma irmã de dezesseis anos; era solteira; tinha vinte e um anos; foi aprovada na Universidade Pública de Nova Iorque, embora não fizesse o curso de direito no qual se inscreveu; dava aulas de dança para um grupo de crianças em uma escola pública do Bronx, bairro onde morava.   
Eu não podia imaginar uma criatura com uma aparência tão masculina e desprovida de charme dançando. Talvez se tratasse daquelas danças de rua, praticadas por adolescentes que usavam boné com a aba virada para trás. Com isto ela parecia combinar.  
Eu não sabia que minha companhia fornecia visto de permanência a estrangeiros, nem me passava pela cabeça que se fazia esse tipo de contrato com funcionários por aqui. Era algo que eu precisava averiguar mais tarde, embora esse tipo de negociação parecesse útil para os meus planos agora, pois se a garota recusasse a minha proposta, o que eu duvidava muito, eu poderia coagi-la ameaçando tirar-lhes o visto de permanência.
Ótimo. Aquilo estava ficando perfeito. Eu mandaria meu advogado providenciar toda a documentação necessária e me casaria com Fernanda em menos de vinte e quatro horas.
Mal podia esperar para ver o cara do meu velho ao ser apresentado à minha esposa. Obviamente seria a melhor parte do meu casamento.
Assim, solicitei uma reunião com James, meu advogado particular, o coloquei a par de toda a situação e dos meus planos, sendo que este confirmou o quanto as coisas seriam facilmente resolvidas. O casamento poderia ser realizado no dia seguinte, ali mesmo no escritório, com a presença de um juiz, para que quando meu pai soubesse quem era sua nora nós já estivéssemos casados, de modo que ele não poderia fazer nada a respeito e nem tirar o meu cargo, já que eu haveria cumprido sua única exigência.
No dia seguinte, estava tudo arranjado. Após o horário do almoço, James e um juiz de sua total confiança chegaram para a nossa reunião, trazendo todos os documentos necessários, sendo eles um termo de confidencialidade que Fernanda deveria assinar se comprometendo a jamais revelar o acordo que faríamos; um visto de permanência definitivo para ela e toda a sua família, sem que fosse necessário o cumprimento do trabalho na empresa e, o mais importante: minha certidão de casamento, devidamente legalizada e registrada, restando apenas nossa assinatura.
O juiz asseguraria que minha assinatura e da minha ilustre esposa, fosse devidamente reconhecida em cartório. O que garantiria que toda a transação fosse realizada ali, na sala de reuniões, como qualquer outra transação de negócios.
Alguns minutos depois, no horário combinado, chegaram Robert, o meu fiel motorista e David, meu segurança pessoal há anos, as únicas duas pessoas no mundo em que meu confiava cegamente. Ambos serviriam como testemunhas daquela bizarra união.
Restava apenas conversarmos com Fernanda.
Solicitei sua presença na sala, dando ordens à Jennifer de que, após a chegada dela, não fôssemos interrompidos em hipótese alguma.
Cinco minutos depois houve uma batida suave na porta e a criatura de aparência frágil e ao mesmo tempo grotesca entrou, usando seu macacão azul folgado, bastante masculino e botas de operário. O rosto pálido, sem maquiagem, continuava meio camuflado sob os fios de cabelo bagunçados que escapavam do penteado mal feito. Caminhava com hesitação, como se pisasse em cascas de ovos tentando não quebrá-las. Sua postura deixava evidente que estava nervosa e não se sentia à vontade no ambiente em que se encontrava.
_ O senhor mandou me chamar? _ Ela indagou, hesitantemente, alternando seu olhar entre meu rosto e dos demais presentes, como um coelhinho assustado que se sentia ameaçado.    
_ Sente-se. _ Ordenei, gesticulando para a primeira cadeira da fileira, ao lado das testemunhas. Do lado oposto da mesa estavam James e o juiz, enquanto eu ocupava meu lugar na cabeceira.
Ela obedeceu, sentando-se, visivelmente desconfiada e desconfortável.


CAPÍTULO II


_ Olá Srta. Vieira, sou James Watson, advogado do Sr. Baker. _ James começou, como o instruí a fazer. _ Temos uma proposta a lhe fazer, mas antes de mais nada precisamos que assine isso. _ Ele estendeu o documento diante dela. _ É um termo de confidencialidade de acordo como qual você manterá em sigilo cada palavra que for dita nesta sala hoje.
Ela arregalou seus olhos castanhos, alarmada e segurou o papel entre seus dedos frágeis, examinando-o.
_ A Srta. Sabe ler? _ Perguntei e apenas depois que fechei a boca lembrei-me que ela foi aprovada na Universidade de Nova Iorque
_ Sim, sei. _ Ela não se deu ao trabalho de olhar para mim quando respondeu, mostrando que não se deixava abalar com uma atitude preconceituosa e ofensiva como a tive. 
Leu atentamente o termo de confidencialidade e o assinou sem hesitar.  
_ Muito bem. _ James continuou, após pegar o documento de volta, examinando a assinatura. _ A proposta é a seguinte: você se tornará esposa do Sr. Baker aqui, hoje, nesta sala, por um determinado período. _ Vi o queixo dela cair, seus olhos arregalados, quase saltando da órbitas, expressando pura incredulidade. _ Em troca disto, seu visto de permanência nos Estados Unidos, assim como de toda a sua família se tornará irrevogável e isento do contrato de serviços prestados pelo seu pai à companhia. Alguma pergunta?
_ Isso é algum tipo de brincadeira? _ Ela fitava James atônita.
_ Claro que não... 
_ A realidade é a seguinte. _ Interrompi meu advogado. _ Meu querido pai e segundo maior acionista da companhia ameaçou doar suas ações ao incompetente de meu primo Derek caso eu não arranje uma esposa dentro de uma semana e lhe dê um neto, mas como não tenho interesse nenhum em constituir uma família, estou fazendo esse acordo com você, de modo que nós dois só teremos a ganhar, você terá uma vida mais confortável, não precisará mais limpar o chão, sua família vai morar numa casa boa, no bairro que escolher, seu pai terá um bom plano de saúde para cuidar do problemas na coluna e ao mesmo tempo eu garanto meu lugar de direito na presidência. Devamos encarar a situação como um acordo de negócios, no qual fique bem claro que não haverá espaço para envolvimentos românticos da nossa parte.
Ele ficou me encarando em silêncio por um longo momento, como se digerisse as minhas palavras com lentidão, seus olhos ainda expressando incredulidade.
_ Mas isso é um absurdo! _ Falou finalmente. _ Não posso aceitar uma coisa dessas. Eu tenho um noivo, sem falar que isso é imoral. Não se pode comprar um relacionamento.
Suas palavras me irritaram. Como ela podia ser estúpida a ponto de recusar uma proposta daquelas? Deixar de escolher viver em uma casa confortável, sendo servida por empregados, sem jamais precisar trabalhar, para continuar limpando o chão e vivendo no Bronx?
_ Não estamos falando de relacionamento nenhum aqui. _ Esbravejei, impaciente. _ Isso será apenas um acordo, um negócio como qualquer outro, onde nós só teremos a ganhar.  
Ela me olhava como se eu fosse um alienígena de duas cabeças que acabava de aterrissar na terra. 
_ Por que eu? Por que esse acordo? O senhor pode se casar com a mulher que desejar, na hora que quiser. Sem precisar barganhar por isso.
“Porque você é tudo o que meu pai odeia e estou muito a fim de dar o troco nele.” As palavras ecoaram em minha mente.
_ Porque eu sei que você e sua família precisam de assistência e quero ajudar. Sem falar que está próxima e sabe que não há a mínima chance disso tudo passar de um simples acordo.
Um brilho furioso atravessou a expressão dos seus olhos.
_ Acontece que eu não estou à venda. _ Levantou-se determinada. _ Eu posso trabalhar quanto tempo for necessário para pagar esse maldito visto sem precisar me vender para isto. Com licença.
E, sem mais nem menos, levantou-se e se dirigiu para a porta, enquanto meu sangue fervia de raiva. Como ela se atrevia a me confrontar daquela forma? Quem ela pensava que era?
_ Acontece que não haverá visto algum se você se recusar a aceitar minha proposta. _ Minha raiva era tanta que minha voz saiu alta, fazendo eco pela sala grande. _ Vocês serão deportados de volta para o Brasil ainda hoje se você não assinar esses malditos documentos.
Ela estava quase alcançando a porta, quando por fim de deteve. Ficou imóvel por um instante, depois se virou e voltou a sentar-se em seu lugar, fitando-me com um ódio quase mortal, que eu não compreendia, se o que eu lhe oferecia era mais do que ela jamais poderia ter.
_ Se é um acordo, acredito que eu tenha direito de fazer algumas exigências. _ Falou, a voz mais mansa, embora a fisionomia continuasse carregada.
_ E quais seriam suas exigências?
_ Apenas uma. _ Ela hesitou antes de continuar, como se estivesse embaraçada. _ Nenhuma intimidade acontecerá entre nós. Podemos morar sob o mesmo teto, deixar todos acreditarem que somos marido e mulher, mas nada de se.xo.
Processei suas palavras e não sabia se sorria ou se me enfurecia mais. As mulheres no geral estavam sempre tão à disposição para fazer se.xo que chegava a ser engraçado ela dizer aquilo. Talvez fosse lés.bica. Mas eu duvidava disso, devia ser uma romântica estúpida apaixonada pelo noivo que disse ter, provavelmente outro brasileiro Fo.di.do da vida, que veio para os Estados Unidos trabalhar como faxineiro.
_ Isso não vai ser possível, porque meu velho quer um neto e eu não vejo uma forma mais convencional de engravidar você. _ Eu ainda não tinha parado para pensar nessa parte do nosso acordo e subitamente comecei a imaginar como ela seria por debaixo daquele macacão horrível e daqueles cabelos desgrenhados. Pelo seu rostinho de menina inocente, era possível que não tivesse muita experiência se.xual e ensiná-la podia até ser prazeroso. _ Mas não fique aflita com isso. Te asseguro que você vai gostar.
Vi o rosto dela ficar vermelho como um pimentão, ao passo que seus olhos se arregalavam sobre os meus, antes de irem fitar o chão.
_ Sem mais delongas, Srta. Vieira. _ James interveio, firme, direto e persuasivo como o bom advogado que era. _ Você tem uma decisão a tomar e precisamos que tome agora. Vai se casar com o Sr. Baker ou deixará o nosso país?
_ Eu posso pensar a respeito? _ A voz dela saiu num fio.
_ Não há no que pensar. É uma decisão simples. E preferimos resolver as coisas ainda hoje.
_ Posso pelo menos ir ao banheiro antes?
Mer.da! Aquilo estava se prolongando por demais. Eu não conseguia entender qual o problema com aquela garota. Qualquer outra no lugar dela já teria assinado os malditos documentos e estaria dando saltos de alegria. Seria tudo isso amor pelo tal noivo?
Mulheres! Tão iludidas pelo romantismo!
_ Use o banheiro aqui da sala. _ Gesticulei na direção da porta, apressado, temendo que ela fugisse ao descer para usar o banheiro dos funcionários.
Se ela recusasse a aceitar minha proposta, eu expulsaria toda a sua família do país e procuraria outra garota com a mesma origem, qualquer outra aceitaria aquilo sem hesitar, entretanto, quanto mais ela se fazia de difícil, mais eu queria que fosse ela. Simplesmente porque eu me recusava a perder um desafio.
Minha futura e pálida esposa deixou seu assento para ir ao banheiro, se demorando lá dento muito mais que o necessário para qualquer coisa que pudesse estar fazendo, o que contribuiu para que a raiva me tomasse de novo. 
Eu estava prestes a derrubar aquela porta e arrancá-la de lá, quando por fim ela saiu e voltou a ocupar seu lugar à mesa. Tinha os olhos avermelhados, como se estivesse chorando, o que não entendi, afinal, por que alguém choraria quando estava prestes a deixar uma vida miserável por uma de rainha?
_ Eu não conseguiria fazer isso. _ Ela falou cabisbaixa, fitando o tampo da mesa. _ Não posso me vender desta forma. Ir para a cama com um homem que não amo em troca de favores. Isso não está certo. Não sou uma prostituta.
Fiquei furioso e ao mesmo tempo intrigado com tanto puritanismo. No meio em que eu vivia era tão comum ver mulheres se entregando a homens por interesse que ficava difícil acreditar que ainda existiam pessoas que pensavam como ela.
_ Você passou esse tempo todo no banheiro e nem parou para pensar que isso pode ser agradável para você? _ A frase me escapuliu e novamente seu rosto ruborizou.
_ Eu tenho meus princípios. _ Balbuciou, sem desviar o olhar da mesa. Parecia um animalzinho acuado. Se eu não conhecesse bem as mulheres e seus truques, seria capaz até de sentir pena.
Apoiei meu queixo nas mãos, observando aquela criatura tão singular, perguntando-me o que deveria fazer com ela. Eu poderia dispensá-la agora mesmo e arranjar outra do mesmo nível em questão de horas, que assinasse o maldito contrato sem hesitar. Entretanto, havia uma parte de mim que insistia em exigir que fosse ela, talvez aquela parte aventureira, que se recusava a perder. E foi esse meu lado que me levou a propor-lhe um desafio.
_ Fazemos assim Srta. Vieira. Você se casa comigo, se muda para minha casa, sem que eu encoste um dedo em você até que me peça para fazer isso. _ Ela finalmente ergueu seu olhar, encarando-me com espanto. _ Se dentro de três meses você não me pedir que a leve para cama, eu não apenas lhe dou o divórcio, liberando-a de qualquer compromisso comigo, como também concedo seu visto de permanecia e de toda a sua família em nosso país, sem que seu pai ou você precisem cumprir com o tempo de trabalho na companhia. O que acha?
_ Um visto permanente? _ Ela parecia incrédula.
_ E irrevogável.
_ E isso será acrescentado ao nosso acordo por escrito?
_ Claro que sim.
_ Nesse caso eu concordo.
Ela parecia tão segura de si que chegava a ser espantoso. Realmente acreditava que podia viver comigo sob o mesmo teto sem ser persuadida a se entregar a mim. Modéstia parte, eu conhecia muito bem as mulheres e sabia exatamente como seduzir uma delas. Não era algo difícil. Eu tinha certeza que em uma semana a Srta. Vieira estaria gemendo de prazer em meus braços e conceberia o filho que eu precisava.
_ James, por favor redija o documento acrescentando o que acabamos de combinar.
Imediatamente, meu advogado obedeceu, abrindo seu notebook para digitar um novo documento, que imprimiu minutos depois, enquanto a Srta. Vieira voltava a fitar a mesa.  
_ Ótima decisão. _ Fiz questão de falar, esperando que ela me lançasse novamente aquele olhar atônito, porém, ela sequer se moveu, ignorando-me totalmente.
Eu a faria pedir perdão por isto quando a tivesse debaixo de mim, goz.ando como uma alucinada, devorando meu p.au com sua va.gina e pedindo por mais. As mulheres sempre queriam mais e eu daria tudo a ela, até que seu noivinho não passasse de uma lembrança muito distante em sua mente.
James entregou a ela cada um dos papéis, indicando onde devia colocar sua assinatura. E para finalizar a cerimônia, nada solene, o juiz proferiu um pequeno discurso, nos fez trocar as alianças e nos declarou marido e mulher, meus empregados, que serviam de testemunhas daquela bizarra uião, nos parabenizando como se realmente fôssemos um casal.
_ Pronto. Agora você é minha. _ Falei, com a intenção de provocá-la, mas não deu certo, ela me ignorou novamente, como se nutrisse um imenso desprezo por mim.
Cara.lho, não seria tão fácil conseguir tre.par com aquela criatura até que ela concebesse a po.rra de um filho. Ainda assim, eu acreditava que tinha feito a escolha certa e me recusava a me arrepender. Até porque não havia mais como voltar atrás, tinha mesmo que ser ela.
_ Sra. Baker, espero que tenhamos uma boa convivência. _ Falei. _ E em nome disso, espero que seja rápida em ir até o subúrbio onde mora em busca de seus bens pessoais, embora eu acredite que não seja necessário trazer muita coisa já que vai precisar de um guarda roupas novo. Aproveite esse tempo também para terminar sua relação com seu noivo, pois embora o que há entre nós não seja exatamente uma relação, agora você é esposa do presidente de uma importante companhia e a fidelidade é primordial. _ Finalmente consegui capturar a sua atenção e o olhar com que ela me encarou, continha um ódio feroz. _ Este é meu motorista Robert, ele vai te levar onde precisar ir e depois te deixará em minha casa, seu lar de agora em diante. 
_ Por três meses apenas. _ Ela fez questão de me desafiar, mas em vez de me irritar, achei seu jogo excitante.
_ Não, até você colocar meu filho no mundo. _ A tristeza atravessou seu olhar. _ Não sei se você notou isso enquanto lia o contrato que assinou, mas essa criança não será tirada de você. Após o processo de divórcio, os dois poderão morar onde você quiser e terão toda a assistência de que necessitarem. Você poderá dedicar o resto dos seus dias a educar nosso filho e a voltar para o seu noivo, se ainda o desejar. _ Coloquei um tom de malícia nas quatro últimas palavras e a vi corar mais uma vez.
Definitivamente a Sra. Baker era uma mulher de reações intensas, talvez nossa convivência não fosse tão maçante quanto eu imaginava.
_ Não preciso que seu motorista me leve. Vou de metrô. Pego seu endereço com a sua secretária. _ Levantou-se novamente pronta para sair, tentando me confrontar mais uma vez. Além de intensa, ela tinha também um temperamento difícil, mas nada que com o tempo eu não pudesse controlar.
_ Eu insisto. Robert vai te levar.
_ Não precisa. Eu sei o caminho.
Ela estava quase alcançando a porta e sua teimosia despertou novamente a fúria dentro de mim.
_ Sra. Baker! Pare aí mesmo! _ Gritei tão alto que todos à mesa se assustaram, fitando-me atônitos.
Minha esposa parou, hesitou e então se virou.
_ Sr. Baker, entenda que não será bom para a minha segurança chegar no Bronx em uma limusine. Sem mencionar que eu pretendo esconder toda essa palhaçada dos meus pais.
_ E do noivo? _ Ergui uma sobrancelha, fazendo minha melhor expressão de ameaça.
Ela expirou fundo, soltando o ar dos pulmões, deixando os ombros caírem, derrotada.
_ Na verdade sim. Ainda preciso pensar sobre o que dizer a todos eles.
_ Então pense em algo que envolva uma limusine, pois Robert vai te levar e trazer. E já que você considera isso perigoso, arranjarei alguns seguranças para acompanhá-los. _ Ela abriu a boca para protestar, mas a interrompi antes que tivesse a chance de falar. _ Agora vá e não me faça mais perder meu tempo com essa discussão.
Robert caminhou até ela, gesticulando para que o seguisse e finalmente minha digníssima esposa decidiu obedecer, indo atrás dele.
_ Me sinto na obrigação de te desejar boa sorte. _ James falou, arrumando sua valise, depois de observar toda a cena em silêncio, ao lado do juiz e de David.
_ Eu me viro bem com as mulheres e com essa não será diferente.
_ Eu receio que essa garota não seja igual às mulheres que você está acostumado a lidar. _ Ele levantou-se pronto para sair, o juiz imitando-o.
Ambos apertaram-me a mão em despedida, trocaram algumas palavras formais comigo e deixaram a sala, seguidos por David que voltava ao seu posto perto do elevador, onde ficava diariamente fazendo a minha segurança.  
Eu sentia o gosto da vitória na boca quando atravessei a porta que ligava a sala de reuniões à minha, indo direto para o frigobar em busca de uma bebida. Para algumas pessoas era antiético beber no trabalho, mas para mim era relaxante e ao mesmo tempo útil, pois o uísque deixava meu raciocínio mais rápido, propício para as transações que realizava diariamente.
Servi-me da bebida e me coloquei diante da parede de vidro, observando o pico dos edifícios lá fora, uma verdadeira selva de pedras, dentro da qual minha esposa estava nesse momento, sob a recomendada vigilância de Robert e de dois seguranças, o que me garantiria que ela não fugiria do seu compromisso comigo.
Parecia cômico o que acontecia, afinal era eu quem costumava fugir de qualquer compromisso com as mulheres.
Tentei imaginar o que ela inventaria para dizer ao noivo e à família, já que deixou claro que não falaria a verdade, mas naquele instante eu só conseguia pensar na reação do meu pai quando a conhecesse e soubesse que o neto que me forçava a dá-lo teria o sangue de uma faxineira brasileira. Eu não podia ter pensado em nada melhor para fazer aquele velho pagar por me desafiar.  

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Prisão (Trilogia Fênix)

Prisão 
(Trilogia Fênix)




Prólogo



Olhar aquele homem na minha frente me revira o estômago. Maldita hora que fui aceitar trabalhar para Nahrain. Porem, ele não sabe com quem ele está lidando. - Quem você pensa que é? – Pergunto já elevando a minha voz. - Eu já enfrentei muito cachorro grande, você não passa de um filhotinho pra mim Nahrain! – Grito dando soco na mesa enquanto me levanto para ficar cara a cara com ele. Eu. Não. Tenho. Medo. Você.  – Digo o olhando com desprezo. Ele me olha de volta com ódio quase palpável, eu rio por dentro, ele não faz ideia que a força que me move é muito maior do que qualquer sentimento que ele tenha por mim.
- Quando eu vim trabalhar para você eu disse, em alto e bom som, que eu não iria aceitar o trabalho por que eu havia dormido com o seu filho. Eu não trabalho com ou para os homens com quem saio! O senhor insistiu, dobrou a minha porcentagem nos lucros para que eu aceitasse. Por fim eu aceitei e o fato do seu filho não largar do meu pé não é problema meu!
O velho puxa os cabelos de traz para frente em um gesto de frustração, um traço característico que faz com o que eu me lembre, imediatamente, do motivo da nossa discussão: Omar Nahrain, filho do homem que me contratou para salvar sua empresa da falência. O homem que com apenas uma noite de sexo louco e selvagem bagunçou toda minha vida correta e cronometrada.

Meu nome é Angelina e eu sou uma business save.


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Capítulo 1
Angelina

Preciso me levantar... algo pesado me prende ao chão... quero gritar, mas meus pulmões ardem pelo meu esforço... as mãos dele passam por todo meu corpo... meus olhos estão desfocados devido aos socos... estou flutuando, já não sinto mais nada... enquanto ele entra e sai de dentro de mim com tanta força que parece um saco de pregos,esse é o terceiro, ou seria o quarto?.. Não importa mais... olho para o lado e ele está lá com os olhos abertos, sem vida e as mãos esticadas tentando me alcançar sem sucesso, estico minhas mãos, mas não o alcanço...

- Acorde Angelina! Acorde querida! – Sinto mãos delicadas me puxando e ouço um grito ecoar pelo quarto ainda tomado pela escuridão, meu grito. Retiro o cabelo dos olhos, sinto meu corpo todo suado, a respiração pesada. Olho para os pés da cama e a vejo, seus olhos estão tão abertos que parecem que vão pular das órbitas.
- Eu estou... – Tereza me interrompe antes mesmo que eu complete a frase.
- Não me diga que está bem! Quando foi que você dormiu uma noite inteira? - Sua pergunta soa irritada.
– Eu não preciso de uma noite inteira de sono Tereza e você sabe muito bem disso!
- Todo mundo precisa de uma noite decente de sono! - Ela se senta ao meu lado e segura minhas mãos com carinho. – Os remédios não estão funcionando mais! - Não tenho como negar, já que ela afirmou.
 – Não. Parece mais água com açúcar, mas eu posso tentar tomá-los com wisk, vodka...
Vejo seus olhos azuis se arregalarem novamente e gargalho vendo em quão fácil ela cai nas minhas provocações. Me levanto e sigo para o banheiro, cumprimento a mulher de feições pálidas e grandes manchas escuras abaixo dos olhos que olha pra mim pelo espelho. Libero um suspiro percebendo que querendo ou não preciso voltar ao André. Mas primeiro vou para academia já que o sono mais uma vez me abandonou, saio do banheiro e na saída do quarto comunico minha decisão a Tereza. – Vou à academia Tereza, ligue para Anna e peça  para marcar uma consulta para mim com o André para a primeira hora de hoje, por favor. Não preciso me virar para saber que seu sorriso se espalha cobrindo quase todo o rosto.

Na academia libero um pouco da tensão na esteira, mas ainda me sinto sufocada. Não consigo tirar esse aperto, essa angústia que me persegue. Calço as luvas e sigo para o saco de pancadas situado no canto do cômodo, ele sempre funciona melhor do que a esteira, apesar de eu não me acostumar com isso.
Jab, jab, cruzado e chute. Jab, jab, cruzado e chute. Depois de várias sequencias meus músculos estão vibrando, toda tensão se foi, mas a angústia ainda está lá, escondida, a espreita, não importa o que aconteça e quanto tempo passe, ela sempre estará aqui.

- Eu acho que você tem alguém aí precisando transar! - Anna, minha melhor amiga desde que eu me entendo por gente e minha assistente, me diz isso com a maior naturalidade do mundo.
- É isso que você acha mesmo? Por favor, Anna! – Digo tentando soar séria, o que não acontece. – Nem tudo na vida gira em torno de sexo sua tarada! – Ambas rimos. - O que você faz por aqui a essa hora?
- Só uma papelada que eu preciso que você assine para que o valor da Martinez entre na sua conta da Suíça.
- Ok. Só vou tomar banho e me encontro com você na sala.
- Tudo bem, leve o tempo que precisar. Ouça isso precisa parar Angel! - A menção do apelido que ela me deu me diz que aí vem ‘a conversa’.
- Eu sei. Eu vou fazer alguma coisa. - Respondo sem conseguir a olhar diretamente nos olhos.
- Sério? Você acha que de costas pra mim eu não vou saber que você está mentindo? Eu te conheço a o que? Um ano? Não Angel! São 27 anos de amizade e eu sei que você não vai fazer nada! Você prefere ser consumida, engolida pela dor a dizer o que tanto te atormenta!
- Eu sei o que me atormenta Anna! - Eu grito. – E eu saber já é sofrimento suficiente! Nada do que eu faça vai mudar isso! - Estou ofegante. Me controlar exige tudo do meu controle emocional. - Eu vou tomar banho e me trocar, nos vemos lá em baixo em 20 minutos.
- Ok. – Ela me responde sem nem mesmo olhar para mim, o que aumenta meu sentimento de culpa em mil por cento.
Durante o banho decido não sair de casa, afinal hoje é sexta feira e essa pequena discussão com a Anna me deixou de mal humor. Visto um moletom e desço para me encontrar com ela e assinar os papéis para transferência.

- O café está servido. - Me avisa Tereza no caminho para a sala de estar.
- Obrigada Tereza, traga os meus remédios por favor?  Anna, vamos para a mesa do café por favor, não comi nada ainda.
- Tudo bem, você pode levar o computador enquanto pego as pastas com os papéis?
- Claro. - Respondo, ainda sem jeito pela minha explosão anterior.
- Cancele todos meus compromissos de hoje.
- Oi? Desculpe, eu acho que não ouvi direito. Olhando-a de esguelha vejo seu sorriso característico de orelha a orelha, não me contenho e acabo rindo também.
- A rainha do trabalho e da escravidão de amigas barra assistente vai tirar uma folga? Isso é novidade pra mim. É o apocalipse? Vai haver um terremoto ou alguma coisa do tipo?
- Primeiro eu não exploro você, te pago, muito bem, diga-se de passagem, para você trabalhar para mim. Segundo todo mundo merece um dia de folga, até você. Digo piscando pra ela. – E terceiro, mas não menos importante, me desculpe pela explosão. Preciso que vocês acreditem que eu estou bem como estou. - Digo para Anna e também para Tereza que acaba de colocar uma jarra de suco de laranja em cima da mesa. Elas se entreolham, sinto que querem me dizer mais, mas desistem, pelo menos por enquanto.
- Ok. Você que sabe. – Ela diz mais para encerrar o assunto do que para concordar comigo. -  Esses são os papéis da Martinez, peço que você confirme os valores antes de assinar, por favor. Os balancetes da Fragoso, Albertine e Ruarez. A proposta da Hidra e da Celta. Todas duas possuem o Black Card. Existe uma outra proposta também, mas sem o Black Card. Acredito que eles conseguirão em breve.
Examino o formulário de transferência com a assinatura do Sr. Martinez e checando o valor.
- Anna você por acaso trouxe a cópia do contrato com a Martinez? Tenho a impressão que Raul quer me passar para trás. – Ela me dá um sorriso já sabendo
- Eu trouxe comigo sim, aqui está. – Eu a contratei por ser minha amiga, mas ela sempre foi muito eficiente e me ajuda muito. Anna é formada em Administração com pós-graduação em relações públicas, mas não se adaptou a nenhuma das duas carreiras, por isso, resolveu aceitar minha oferta de emprego quando eu voltei para o Brasil. Ela se adaptou tão incrivelmente bem que não consigo imaginar minha vida profissional sem ela. Apanho o contrato conferindo os valores sorrindo por ser tão sortuda a ponto de ainda tê-la em minha vida.
- Como eu pensava. Nesse formulário de transferência está faltando meio milhão de dólares. Ele entrou em contato, explicou o por quê dessa diferença?
- Não. O mensageiro só me entregou e disse que buscaria no dia seguinte.
- Por que eles fazem isso? Eu os salvo da falência, da ruína e eles me negam o valor que me devem. Que não chega a ser nenhum terço do que eles faturam? Eu tenho que deixar esses filhos da puta se ferrarem e falirem, simples assim. – Levo minhas mãos às têmporas, tentando inutilmente, evitar uma dor de cabeça que começa a dar sinal.
- O que eu digo a ele Angelina? – Pergunta Anna já com o telefone em punho.
- Ele não vai te atender querida. – Respondo ironicamente. – Mas tente, quem sabe você dá sorte, só passe o telefone para mim se ele atender. Passe o computador para que eu entre nas câmeras, por favor, vou precisar dar uma olhada para que ele entenda que com meu dinheiro ninguém mexe.  
Enquanto Anna tenta convencer a secretária de Martinez que ela precisa falar com ele urgentemente eu acesso o sistema de câmeras que eu mandei instalar na empresa do Sr. Martinez. Eu tomo meu café e tomo meus remédios enquanto entro em contato com a empresa de vigilância que segue os passos da família dele. Estou a pouco mais de três anos nesse ramo e aprendi que todo cuidado é pouco com esses empresários contratam os meus serviços. Depois de 10 minutos ao telefone e de olhar para uma Anna vermelha feito um pimentão na minha frente faço sinal para ela me passar o telefone.
- Adriana. – Diz Anna, em meio a um sorriso, já prevendo o que ocorrerá. - Aguarde um minuto que a Srª. Angelina vai falar com você.
- Adriana, como vai, aqui é Angelina lukyanova. Ah, eu vou bem, obrigada, mas eu ficaria melhor ainda se conseguisse falar com o Sr. Martinez.
- Ah. Claro. Mas é que. – Ela gagueja. - Desculpe, mas é como eu disse a sua assistente nesse instante, ele está em uma reunião de negócios que vai durar a tarde toda, quer dizer, o dia todo.
- Entendo, então você poderia me fazer uma pequena gentileza?
- Claro Senhora!
- Coloque o seu telefone no viva voz?
- Mas, por que senhora? Não tem ninguém aqui além de mim.
- Fico muito feliz em saber disso, por isso mesmo preciso que você coloque no viva voz. – Minha voz sai gélida e ela percebe que isso não foi um pedido.
- Ca... Claro senhora, pronto, a senhora está no viva voz.
Começo a falar logo após o anúncio da secretária - Obrigada Adriana. Martinez querido, eu sei que você está aí, ao lado de sua secretária Adriana, trajando um terno de péssima qualidade, diga-se de passagem, e de uma cor que não combina nada com esse seu tom de pele e muito menos com seus cabelos vermelhos. – Solto uma risada sem emoção ao perceber os olhos arregalados e a cara de espanto tanto dele quanto da secretária. – Exatamente Adriana, eu estou vendo vocês, assim como eu estou vendo a esposa do Sr. Martinez fazendo compras com um lindo vestido vermelho, (ela está acompanhada de um rapaz bem mais jovem que ela aos beijos, mas isso não vem ao caso) e também estou vendo seus lindos filhos saírem nesse exato momento para a escola com seu motorista, que tem o péssimo hábito de fumar com as crianças no carro. – Ouço um pigarro e deixo escapar um sorriso, Anna me acompanha enquanto gesticula um sinal de positivo.
- Angelina, de...desculpe. Eu estou com uma série de problemas, não estava evitando você. Jamais faria isso! – Gagueja, enquanto passa as mãos gordas pelo cabelo engordurado.
- Eu acredito. – Respondo. – Bem o motivo da minha ligação é que o formulário de preenchimento que você enviou a minha assistente está com um pequeno probleminha.
- Ah! Sim, o que está errado? – Pergunta ele.
- O valor. – Digo secamente.  – Está faltando meio milhão de dólares do valor que combinamos.
- Ah! Isso. – Ele responde em um riso nervoso. – Eu ia mesmo entrar em contato com a senhora sobre isso, é que eu queria te pagar esse valor no próximo faturamento ou quem sabe parcelar esse valor, por que eu estava querendo fazer um novo investimento, mas eu te pago. Não deixaria de pagar pelo que você fez por mim.
- Esse é o X da questão Martinez. – Digo já perdendo a paciência. – Eu não fiz o meu trabalho por etapa, ou parcelado, eu perdi horas do meu tempo precioso para salvar você da falência! Eu fiz o meu trabalho Martinez?
- Sim, claro.
- E por que você me contratou?
- Para você salvar a minha empresa.
- Você não entendeu minha pergunta Martinez, mas eu vou perguntar novamente. POR QUE você me contratou?
- Porque você é a melhor! – Ele admite com um suspiro.
- Era isso que eu queria ouvir. – Digo em um riso de escárnio. – Eu fiz a minha parte Martinez, faça a sua! – Minha voz cortante reverbera pela sala fazendo eco no telefone. – Sou a melhor no que faço, mas eu não sou a melhor pessoa quando mexem com meu dinheiro! Eu acho que você me entendeu.
- Claro. Ok. Estarei enviando outro mensageiro agora mesmo com o novo formulário e o valor correto.
- Obrigada, foi ótimo trabalhar com o senhor. – Assim que encerro a ligação e tomo outro remédio, só que esse é para dor de cabeça que definitivamente se instalou.
- Então, o que você pretende fazer na sua folga Anna?
- O que? Eu estou de folga também?
- Claro que sim! – Respondo com um sorriso pela surpresa dela. – Bem, será que poderíamos fazer algo juntas? – Pergunto sem jeito, já que faz tempo que não saímos.
- Claro Angel! Eu adoraria! Faz tempo que você não sai de casa, se diverte. Só aqueles jantares chatos com empresários, contatos e contatos. – Diz Anna com ar dramático, sem saber que eu saio sim, não com o mesmo propósito que ela, mas definitivamente eu saio.
- Exatamente! Quero sair, dançar, me divertir e esquecer. Quem sabe até encontrar um cara gostoso e me divertir um pouco. – Digo em tom de animação, sei que é isso que ela espera de mim.
- Isso! Assim que eu gosto, então vamos começar a produção. Abriu uma boate nova no centro, disseram que está bombando, entrar é que vai ser difícil, mas a gente dá um jeito.
– Então vamos lá garota! - Sorrio com seu entusiasmo. - Vamos nos embonecar. Vamos ao Salão fazer cabelo, unhas e maquiagem primeiro e depois às compras. Vou só trocar de roupa.
- Vamos lá então! – Diz ela e vai para a sala enquanto eu subo para trocar de roupa.
Normalmente não me sinto muito animada para sair, mas meu corpo pensa o mesmo que Anna, que já está sentindo falta de uma boa noite de sexo já que as reuniões tem me mantido presa quase todas as noites. Só espero encontrar alguém que saiba realmente o que fazer com uma mulher nua em uma cama.
E foi com esse pensamento que o destino resolveu brincar com minha vida, minha libido, minha mente e com o que restou do meu coração.